O que se sabe dos canadenses e do Canadá

“O que eu mais gosto de Ottawa é poder andar de bicicleta, eu vou pelo canal e aí é aquela vista… Dá uma paz!”

Isabella Asato estuda farmácia na Universidade de São Paulo e está vivendo sua segunda experiência internacional, sendo que nas duas oportunidades escolheu o Canadá como destino. Sua primeira viagem foi em 2009, quando ela ainda estava no ensino médio e passou três meses em Vancouver estudando inglês. Agora, na faculdade, ela decidiu voltar à terra conhecida pelas “maple trees” participando do programa Ciência Sem Fronteiras.

Há três meses, Isabella chegou a Ottawa, capital do país, e conta como foi sua experiência com uma família nada canadense, porque prefere morar com brasileiros, a que horas você vai ter que voltar pra casa depois da balada, quais as vantagens e desvantagens da University of Ottawa (pelo menos na área de biológicas) e o que você pode não saber sobre o Ciência Sem Fronteiras, ou pior, sobre a criatividade dos canadenses no Halloween.

Quais as principais diferenças entre as duas viagens que você fez para o Canadá?

Foram bem diferentes, porque em Vancouver eu morava com uma família, então, não tinha tantas responsabilidades. Não tinha que cozinhar, lavar passar, não tinha que me preocupar com nada e eu era mais nova, acho que não entendia direito as coisas que estavam acontecendo e como você muda. Agora não, eu moro com mais quatro pessoas aqui e nós temos que fazer tudo sozinhos, você cria uma independência muito maior. Eu também sinto que tenho mais maturidade, por isso, é tão diferente.

A família com quem vivi a primeira vez era de Macau, que é uma ilha de colonização portuguesa, mas eles eram chineses. Faziam umas comidas totalmente estranhas e que eu nem sabia como eram preparadas, mas aí a gente comia, porque era o que tinha pra comer. Eu morava com mais uma estrangeira na parte de baixo da casa. Já em questão de higiene era ainda mais complicado, porque o problema era evidente para nós, sendo que pra eles parecia tudo normal (e era, são questões culturais). Mas nós dávamos um jeito, limpávamos nossa parte da casa; só que onde eles moravam ficava tudo sujo. Nunca aconteceu nada mais grave, eu não fiquei doente, mas deve ter aumentado a minha imunidade (risos).

Vancouver, 2009

Além disso, minha rotina agora é mais tranquila, porque quando estive em Vancouver eu tinha aula todo dia das 8 às 16 horas e em Ottawa, como eu faço só quatro matérias, consegui distribuir bem o meu tempo. A diferença também é que lá eu fazia só inglês e aqui estou fazendo matérias da graduação.

E as principais diferenças entre as duas cidades?

Vancouver é um lugar agitado, apesar de não ser maior do que aqui, tem mais cara de cidade grande, deve ser a maior cidade do lado oeste do Canadá. E Ottawa é a capital do país, mas falam que é a cidade mais entediante do Canadá também, eu não acho. Gosto mais daqui do que de Vancouver, porque a cidade é grande (para os padrões canadenses, porque não tem muita gente aqui, o Canadá não tem pessoas!!), mas tem cara de interior. Eu prefiro assim porque gosto de cidades mais tranquilas e aqui você tem bastante contato com a natureza, o Canadá em geral é assim. Só que em Ottawa você está no centro e daí vira a esquina e está no canal, que é lindo e do outro lado tem o parlamento. A vida acontece junto da natureza, mesmo você estando na cidade.

Você mora com brasileiros? Isso interfere muito no aprendizado do idioma?

Atrapalha um pouco porque a gente acaba não falando inglês. De vez em quando, tentamos até fazer uns tratos: “ah vamos falar só em inglês” e dá certo, só que, claro, de modo geral isso atrapalha pra desenvolver. Mas como temos aulas em inglês e estamos em contato com a língua o tempo inteiro, apesar de a gente não praticar tanto, eu ainda prefiro morar com brasileiros. É bom porque a gente não tem nenhum choque cultural dentro de casa. Alguns amigos que moram com pessoas de outras nacionalidades têm problemas, principalmente quando o assunto é higiene, mas são costumes diferentes, né? Não dá pra mudar a pessoa, porque é uma questão cultural. Assim a gente evita alguns atritos, apesar do lado negativo de não praticar tanto a língua. E tem mais cara de casa também quando as pessoas são do mesmo país, temos os mesmos hábitos…

Você está aproveitando a oportunidade para estudar francês também?

O francês eu comecei no Brasil, quando soube que eu vinha pra cá, porque Ottawa é uma cidade bilíngue. Na universidade tem cursos em inglês e em francês e está tudo escrito em duas línguas. Depois de chegar, resolvi fazer uma matéria em francês e continuo estudando, agora, na Aliança Francesa. Estou adorando, é uma excelente oportunidade e é possível praticar! Tenho aprendido bastante vocabulário, é comum ver as pessoas falando francês nas ruas. Dependendo do lugar, você chega falando em uma ou outra língua e eles te atendem normalmente.

Os canadenses são receptivos?

Eles são muito gentis, mas não são calorosos como a gente. Sempre estão dispostos a ajudar e são bem solícitos. Muito educados também, pra tudo é “por favor”, “desculpe”, “obrigado”. Já aconteceu de eu estar passando e ir entrar em um prédio e aí a pessoa segurar a porta até eu chegar. É inclusive um pouco esquisito, a pessoa ficou lá parada (risos), mas é a gentileza e isso faz a maior diferença, mesmo sendo coisas pequenas no dia a dia.

Outros traços culturais te chamaram a atenção?

Eu me considero tranquila, mas às vezes estou com os meus amigos brasileiros no ônibus e a gente percebe que ninguém além de nós está falando alto, dando risada, eles são mais contidos, na deles assim… Nada de chegar dando beijo e abraço, e às vezes a gente faz isso sem querer e as pessoas ficam olhando espantadas.

Aqui você anda na rua e ninguém mexe com você, nunca. Ninguém fica olhando, encarando, falando nada. Outro dia estava com os meus amigos e andamos por uns 40 minutos vindo do centro às duas horas manhã. Não acontece nada, não tem uma alma na rua também, mas é algo que você faz sem medo. Mesmo quando está escuro eu ando sozinha sem problemas. Não é como no Brasil que você tem medo de andar sozinha até durante o dia, aqui você tem mais liberdade pra ir aonde quiser. O conceito deles de “perigo” é muito diferente. Por exemplo, na faculdade tem um serviço que chama Foot Patrol, então, se você estiver se sentindo ameaçado (a) em algum lugar do campus, você vai lá e liga (tem telefones espalhados pela universidade) e aí alguém vai e te acompanha até em casa. Tem também algumas linhas de ônibus, que depois das 19h ou das 21h, param fora das paradas. Você pode pedir para o motorista não parar no ponto e ele para mais perto do lugar onde que você está indo.

O transporte é bom?

É sim, só quando neva que fica mais lento, mas aí não tem jeito, acaba atrasando. A velocidade diminui, tem que limpar a rua por causa da neve. Quando está cheio é aquele cheio: pessoas de pé. Em geral funciona bem, nos pontos tem os horários de cada ônibus e se passa com atraso é um atraso bem pequeno. Além disso, os ônibus tem GPS e você consegue saber se o seu está perto, a que horas vai chegar. Em Ottawa só tem ônibus, não tem metrô. A gente vê que as pessoas ao invés de usarem carro usam transporte público, o que diminui o trânsito e sem trânsito é possível chegar a tempo nos lugares. Além dos ônibus, as pessoas usam bastante bicicleta no outono e na primavera. Eu vou de bicicleta pra faculdade, comprei uma aqui e vou pelo canal, ele é bem logo e tem uma ciclovia em volta.

“Aquela vista no caminho para a faculdade”

Quando eu vou de ônibus são uns 15 minutos até a faculdade. Tenho um passe da universidade que dura o ano inteiro, dois semestres de curso, e a gente pode usar o transporte o quanto quiser. O valor foi pago pelo CNPq, são 360 dólares mais ou menos pelos 8 meses. No verão vamos ficar sem, porque não vamos mais estar com a bolsa. São oito meses de curso e quatro de estágio. Os últimos quatro a gente não tem esse apoio no Ciência Sem Fronteiras.

Você já sabe onde vai estagiar?

Não, eu preciso começar a procurar. Quero um estágio na indústria farmacêutica e os processos começam no início do ano, eles vão selecionando em janeiro e lá pra março você tem uma resposta. Também tem a opção de fazer estágio de pesquisa na faculdade, o que eu acredito que seja mais fácil de conseguir porque eles têm muitas pesquisas e muitos campos de estudo. Caso eu consiga mesmo na indústria, talvez eu mude de cidade, agora, se for na universidade, fico em Ottawa.

Esses estágios são remunerados?

Se eu arrumar o estágio na indústria preciso pedir o cancelamento da bolsa e fico só com o que eu ganhar, mas caso eu faça na faculdade o estágio não é pago, daí eu continuo com a bolsa do CNPq. Se você não arrumar o estágio, é preciso justificar o porquê e,então, eles cancelam a sua bolsa e você volta para o Brasil caso o recurso seja aceito, mas é difícil de você não conseguir. Você pode não querer e tentar indeferir sua bolsa no final, mas é só com a condição de eles aprovarem. As bolsas são pagas pelo CNPq ou pela CAPES.

A cidade é muito cara?

Aqui em Ottawa às vezes a gente acha a comida um pouco cara. Legumes, frutas e verduras são bem mais caros, porque é tudo importado. O resto costuma ser mais barato que no Brasil e eu acho que com Vancouver é parecido. Por exemplo, um pão de fôrma barato pode custar uns $ 2,10, mas chega a até $ 4. Pra economizar, comemos em casa. Na faculdade não tem um restaurante universitário, só fast food, o que é caro. Por isso, se a gente vai ficar lá no período da tarde acaba levando comida. São vários os microondas espalhados pelo campus e tem lugares pra você comer. Dá pra levar comida e esquentar tranquilamente e isso o que a maioria das pessoas faz.

Poutine

Poutine

Você tem algum prato preferido?

A cozinha canadense não é muito marcante, mas eu gosto de um negócio que é muito típico, o poutine. São batatas fritas com um molho e queijo. Tem também um outro que é o beavertails que parece uma rabanada, é frito.

De que maneira o intercâmbio está contribuindo para seu crescimento pessoal e profissional?

Eu estou descobrindo coisas sobre mim que eu não sabia. Sempre me achei organizada, mas nem tanto em questão de arrumar as coisas, só mentalmente mesmo. Mas aqui eu descobri que sou muito mais organizada do que eu achava que eu era. E é assim, você vai descobrindo novas coisas no dia a dia, porque é obrigado a se virar sozinho, não tem ninguém pra cuidar de você. Eu estou aprendendo a cozinha, pra felicidade da minha mãe… (risos).

Em relação à faculdade, eu percebo que os professores gostam muito de dar aula, são sempre muito prestativos e apesar de serem pesquisadores, eles não estão lá só pra fazer pesquisa. Estão dispostos a ensinar, tirar suas dúvidas, deixam os horários que eles estão disponíveis pra você ir na sala deles, respondem e-mail, ficam lá depois da aula. Então, é uma atenção que não é tão comum na USP, pelo menos com os professores que eu já tive.

Agora, falando de um lado positivo da USP, eu acho que as aulas lá são mais fortes. Aqui no Canadá, tem mais coisas pra você fazer: trabalhos, exercícios, apresentações, mas as matérias não são tão aprofundadas e tão difíceis quanto na USP. Você estuda bastante porque tem bastante coisa pra estudar, mas não é super difícil, pelo menos não nas biológicas, que é minha área. No início, eu até larguei uma matéria porque era muito básica, apesar de ser considerada disciplina do terceiro ano aqui (parecia matéria de ensino médio no Brasil).

Como é a organização do campus?

Aqui eu tenho aula de farmácia no prédio de artes, tenho inglês no prédio de engenharia, é tudo meio misturado, então, você não consegue distinguir muito bem os grupinhos e a identidade de cada faculdade. Não é tão separado como acontece no Brasil, aqui os alunos fazem algumas matérias básicas, mas precisam se inscrever em disciplinas de outros cursos para se formar, eles não têm turmas fechadas como na USP, é tudo misturado.

Parlamento canadense, planeje sua visita

Quais são as principais atrações da cidade?

Tem os jogos de hockey, eu fui em um da faculdade, é bem legal. Mas a atração principal da cidade é o parlamento, eles fazem tours, o prédio é lindo. Também tem muitos museus aqui e muitos festivais, mas não peguei nenhum ainda. Existe quem considere Ottawa uma cidade tediosa, mas tem bastante coisa pra fazer sim. Só acho que as coisas fecham muito cedo, até a balada! Fecham duas horas da manhã e em São Paulo a essa hora é que a festa está começando a ficar boa (risos). Pensando positivo, é bom porque você chega cedo, daí ainda dá pra aproveitar o dia seguinte. Para os curisos, a idade mínima pra entrar nas baladas é 19 anos. Eles olham o documento, mas nem revista tem. A última vez que eu fui rolou uma brigazinha, mas até a briga é ordenada, vi umas pessoas sendo colocadas pra fora. Mal deu tempo de a pessoa brigar e ela já estava sendo retirada (risos).

Você chegou a participar do Halloween?

Brasileiros prontos para sair de casa

Sim, foi bem legal, as criancinhas saem pra pedir doce e de manhã você já vê todo mundo fantasiado no meio da rua. Até no ônibus, pra ir no trabalho, na faculdade. Até o pessoal mais velho se fantasia pra ir nas festas, daí a gente resolveu entrar no clima e fomos em uma comemoração também. Tem umas fantasias super elaboradas, tinha uma menina que estava de Barbie dentro de uma caixa e o namorado dela estava de Ken na outra caixa. Eles pensam na fantasia o ano inteiro! Tiveram também uns “zombie walk” correndo pela cidade e organizaram uma corrida beneficente em que se os organizadores te pegassem você virava zumbi também. Eu adoro o Canadá, depois de ter vindo a primeira vez eu queria voltar. Agora eu voltei e sei que assim que for embora mais pra frente vou querer vir de novo!

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