De peito aberto para novas descobertas

Ricardo chegou ao Canadá no segundo semestre de 2012

Ricardo Moreira de Oliveira é estudante de engenharia elétrica na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e esteve no Canadá durante dois semestres letivos na University of Calgary. A viagem abriu seus horizontes para muito além das fronteiras do país. Ricardo aproveitou para ir fundo no aprendizado do inglês, viajar, conviver com um clima rigoroso, descobrir mais sobre o Brasil, conhecer novas pessoas e se apaixonar… não só por uma cultura diferente, mas por sua namorada, Suanny, equatoriana que conheceu no Canadá.

Por que você se decidiu pelo Canadá?

Eu sempre tive como meta ser fluente em inglês e sempre tive a noção de que se eu quisesse realmente aprender, só conseguiria se, de fato, morasse por um tempo em algum outro país que tivesse o idioma como língua mãe. Além disso, eu já tinha estudado francês por um ano no Brasil. Então, a oportunidade de ir ao Canadá era perfeita para que eu pudesse aprender as duas línguas e ainda conhecer um país de primeiro mundo.

Como você avalia seu crescimento no aprendizado do idioma com o passar dos meses?

Estudei por volta de 5 anos em uma escola de idiomas e, como quase todo brasileiro que já estudou inglês, pensava que dominava o idioma. Diria que foi o suficiente para eu fazer tranquilamente o teste de proficiência (TOEFL). Porém, ao chegar lá, percebi o quanto nossa língua portuguesa é cheia de sotaques, como o do R rasgado ao início de uma palavra ou do som fechado das letras T e D (nas palavras “dia”, “amizade” e “esmalte”, por exemplo). São características fonéticas que nunca imaginamos ter, mas que por alguns meses contribuíram para que eu pronunciasse muitas palavras incorretamente, tanto por falta de prática como de convívio com a língua.

Com o tempo fui aprendendo, um tanto quanto a força, a melhor maneira de me comunicar, e hoje me considero fluente em inglês e consigo manter perfeitamente uma comunicação, embora em certos momentos não entenda músicas ou gírias.

Foi fácil se adaptar à nova realidade?

Sim, não tive problemas quanto a isso. Tive sorte e o programa me deu um apoio muito grande para a ida, acomodação, seguro de vida, matrícula na universidade, enfim. Só tive que tirar o visto por conta própria, mas de resto tive uma enorme ajuda do CNPq (órgão responsável pela bolsa). Ao chegar no Canadá, o único problema era o inglês. O frio só chegou depois de alguns meses e era algo inédito, que eu estava esperando muito pra ver, então, não foi bem um problema.

Você morava com brasileiros ou estrangeiros? De que maneira essa escolha interferiu na sua experiência?

Eu morei durante o primeiro semestre com mais dois brasileiros em um apartamento. Não tive escolha, pois o programa me dava um lugar para ficar, e era isso. Foi muito bom inicialmente, pois logo estava adaptado ao país, não me sentia sozinho, nem sentia falta do Brasil, o que acho que poderia ter acontecido no início. Depois, na metade do primeiro semestre, um deles pediu à universidade (nós morávamos na residência da universidade) para mudar de lugar, com o intuito de treinar o inglês. Realmente, passados os primeiros meses de adaptação, a preocupação passa a ser atingir outros objetivos, e um deles era aprender o inglês, imagino que para todos que foram pra lá.

No segundo semestre, morei com um canadense substituto desse brasileiro, porém nós quase não conversávamos, porque ele era um tanto quanto estranho e vivia trancado no quarto. Nos últimos dois meses, quando fui fazer estágio e mudei de residência, dividi apartamento com um canadense, dessa vez muito mais simpático do que o primeiro. Nos tornamos bons amigos até. Morar com estrangeiros é ótimo para “pensar em inglês”. Você passa o dia inteiro com o inglês na cabeça e não há outra alternativa a não ser falar e pensar no idioma.

Como foi a recepção por parte dos canadenses?

A recepção foi ótima, os canadenses são realmente como mostram no 9gag, pessoas extremamente educadas e que fazem você se sentir bem, independentemente do lugar de onde você tenha vindo. Fiz muitos amigos de outros lugares do mundo também. Conheci gente da Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Irã, Emirados Árabes, Austrália, Equador, Venezuela, França, entre tantos outros.

University of Calgary

Recomenda a universidade de lá para estudantes interessados em fazer intercâmbio?

Sim, recomendo. Tive todo o apoio da universidade, eles eram totalmente acessíveis e atenciosos. Não tenho idéia de quanto eram os “tuition fees”, pois esse tipo de pagamento era feito diretamente pelo órgão responsável pela bolsa, mas a estrutura era realmente muito boa, e quanto ao sistema de ensino achei diferente e talvez melhor em comparação à minha universidade. Lá tinha muito mais atividades, laboratórios, exercícios para serem entregues e testes do que na Unicamp.

Além disso, na universidade, a nota não era dada apenas pela sua média ponderada em algumas provas, mas sim por todo o conjunto do semestre. Isso estimula o estudo constante, o que é muito melhor para o aprendizado. A última prova também é relacionada a todo o semestre, independentemente de você ter ido bem ou não na matéria. As aulas são mais curtas, de 50 minutos a 1h20, o que é muito, mas muito melhor do que as 2 horas de aula que tenho na Unicamp.

Apesar de todos esses pontos positivos, percebi que as matérias não são tão aprofundadas quanto no Brasil. Tive facilidade para estudar, coisa que não teria aqui, mas acredito que, talvez, todo esse estilo de ensino comprometa a qualidade e profundidade do que é ensinado.

O que mais te chamou a atenção a respeito da cultura local?

Tudo é muito diferente. As pessoas são extremamente educadas, sempre dão “bom dia” e sempre tratam os outros com um respeito ímpar. Se você tropeça em alguém no trem, a pessoa vira e te pede desculpas. Além desse respeito com o próximo, existe muito o respeito com a sociedade. Cito os trens como exemplo, as plataformas ficam no meio das ruas. Há apenas uma máquina para a compra do bilhete , mas não há nenhum tipo de catraca. Ou seja, a pessoa pode facilmente entrar no trem sem pagar, mas não é o que acontece, eles sempre pagam (aleatoriamente, um policial pode vir a pedir seu bilhete em uma plataforma, e se você não tiver, a multa é beeem salgada). De qualquer forma, isso é algo que eu não vejo que pode dar certo no Brasil.

Tem outras coisas bem interessantes também: como as comidas (bem ruins) do dia a dia deles, o quanto eles amam hockey, como o futebol é tido como um esporte feminino, o fato de que a grande maioria das pessoas freqüentam a academia visando apenas a saúde e o detalhe de que os canadenses ficam muito bêbados e transtornados quando bebem (afinal, a maioria não está acostumada, a bebida é muito cara – devido às taxas impostas a esse tipo de produto – e é proibido beber ao ar livre). Outra coisa que me chamou a atenção é que nas festas é muito comum ver uma mulher realmente rebolando em um homem ou em um pole dance, sendo que eles não se beijam e tudo não passa da dança.

Viajando de carro

Viajando de carro

Você teve a oportunidade de viajar para outras partes do país? Era mais barato alugar carro ou ir de avião?

Viajei para as duas costas canadenses, conhecendo diversas cidades, como Vancouver, Toronto, Quebec, Montreal, Edmonton, Banff, Jasper, entre outras, além de também ter viajado para os EUA, conhecendo Seattle, Santa Barbara, São Francisco, Portland, São Diego e outros lugares mais. Nós alugávamos carros, na maioria das vezes, porque saia mais barato e é bem prático, uma vez que a gente tem que se locomover dentro da cidade e assim não perde tempo. Sempre aranjávamos um grupo de amigos, lotávamos o carro e íamos.

Passou por alguma situação inusitada?

Talvez a única coisa inusitada pra mim tenha sido a viagem a Quebec, porque lá eles ainda mantém um espírito separatista em relação aos ingleses e, portanto, não é muito comum encontrar quem fale inglês. Por conta disso, muitas vezes a comunicação foi extremamente complicada, sendo feita até por gestos (apesar de eu ter estudo francês, não sabia falar realmente).

Parque Nacional Banff

Fora isso, as viagens foram muito tranquilas. Ficávamos em hostels, uma opção barata e que, na minha opinião, tem uma atmosfera diferente, de pessoas que estão abertas a se conhecerem e conhecerem as histórias dos outros. Gostei de todas as viagens que fiz, porém, ter atravessado toda a Califórnia de carro, com meus amigos, foi uma experiência muito marcante. Também gostei muito do parque nacional de Banff, afinal, não é à toa que esse destino é conhecido como um dos lugares mais bonitos do mundo, com aquelas montanhas cinematográficas e aqueles lagos incríveis, onde pudemos ver coiotes e caribus (alguns ainda viram ursos). Quebec também é sensacional e Vancouver talvez seja a cidade mais bonita que eu já conheci. 

Quanto aos preços, você considera o custo de vida no Canadá caro?

É mais caro do que o Brasil, sem dúvida. Mas eu acho que não consegui ter uma idéia exata, pois morava dentro do campus da universidade, sem pagar nada. Em relação ao transporte, usufruia do bilhete semestral para trens e ônibus, pago pelo CNPq. As passagens custam 3 dólares, o que parece ser caro, mas o transporte público está décadas à nossa frente: sempre funciona, sempre chega no horário, é difícil estar cheio (pelo menos em Calgary) e todos se respeitam. Já a comida é cara sim, principalmente, se você decidir ser saudável e comer verduras e legumes, pois é tudo muito caro, provavelmente, devido ao clima canadense. Refrigerantes e hambúrgueres são muito baratos e estão por toda a parte.

Inverno gelado

Em relação ao clima, como foi sua adaptação? 

Dos 11 meses que fiquei, devo ter pego uns 6 meses de neve geral. É muito legal no início, mas depois se torna um pouco depressivo, só que você acostuma de novo. Cheguei a pegar -28°C. Até os -10°C é bem tranqüilo, de verdade. É só colocar uma daquelas jaquetas boas para o inverno, que se compra por lá, e já está tudo certo. É impossível não usar luvas, toucas e coisas para proteger o pescoço. Camisas térmicas são muito úteis também, bem como botas impermeáveis.

Chega a ser depressivo porque por muito tempo você não vê mais o sol. Os dias amanhecem cinzentos e com neve, e não há nada que você possa fazer. No começo é tudo divertido: bonecos de neve, primeira neve na vida e tudo mais. Depois, é comum mesmo passar por essa depressãozinha, o sol não aparece por meses e as noites chegam às quatro da tarde, o que é bem complicado. Eu, que sempre gostei muito de sol e de praticar esportes ao ar livre, me vi num beco sem saída. Depois me acostumei e aprendi a conviver com o frio, passei a praticar snowboard. Foi tudo bem interessante. Frios mais intensos fazem o rosto doer e o nariz parece que está congelando, é incrível.

O namoro

Como você conheceu a Suanny?

Foi muita coincidência. A Suanny teve problemas com perda de mala quando estava indo para o Canadá. No mesmo aeroporto e voo, uma brasileira do programa de intercâmbio em que eu estava teve o mesmo problema. Elas se conheceram por causa disso e como não conheciam ninguém em Calgary, começaram uma amizade. A brasileira logo conheceu todos os brasileiros, inclusive eu. Então, foi questão de tempo até ser apresentado à Suanny, que via em nós um pouquinho do espírito da América do Sul, ela se sentia muito à vontade entre a gente. Os brasileiros foram os grandes amigos dela por lá.

Onde tudo começou

As diferenças culturais foram um problema em algum aspecto?

Não necessariamente. Brasil e Equador são bem próximos. A América do Sul como um todo tem uma população bem calorosa. É claro que temos nossas diferenças: como as diferentes comidas, diferentes músicas, mas nada que interfira na relação. Pelo contrário, sentimos muito mais vontade de conhecer essas novas culturas. Nós dois pensamos igual quando nos referimos ao diferente, ao novo: gostamos de conhecer novas culturas, coisas diferentes e isso é perfeito pra nossa relação.

Como tem sido manter um relacionamento à distância?

Um namoro à distancia é complicado, mas tem algumas vantagens, e eu sempre prefiro ver as coisas pelo lado bom. Primeiramente, duas pessoas só decidem manter um relacionamento à distancia porque realmente se gostam. Se um de nós estivesse em dúvida sobre o que queria, não teríamos aceito de forma alguma essa relação. Então, essa é uma prova do que sentimos. É uma prova da confiança mútua também. Quantas relações não terminariam se tivessem que passar por isso? Pois é, a minha se manteve. Além disso, quando a encontrei novamente no Equador, depois de alguns meses, nosso reencontro foi de uma felicidade tão intensa que eu jamais tinha sentido, e não acredito que namorados que estejam juntos o tempo todo possam sentir isso alguma vez. É indescritível. Nós nos falamos todos os dias pelo Facetime, pelo Couple, Whatsapp, Facebook. A tecnologia nos ajuda muito, sem ela não estaríamos namorando hahaha.

Quais os planos para o futuro: Brasil ou Equador?

Canadá ou Europa! Nossa ideia é terminar a faculdade e iniciar aplicação para mestrado em uma universidade do exterior. Eu prefiro o Canadá, porque nós dois já moramos no país, sabemos como são as coisas. A segurança também é um fator determinante. A Suanny prefere Londres, pois é um grande sonho dela viver lá. Nem eu nem ela nos vemos morando no Equador no futuro. No Brasil, eu até viveria, mas ela ainda não conhece, então não pode dar um parecer. Ela chegou sexta-feira passada ao Brasil,estávamos muito ansiosos.

Visita ao Equador antes da volta pra casa, em julho de 2013

Você imaginava ter uma experiência como essa no exterior?

Foi tudo muito incrível. É a melhor experiência de vida que eu tive, e não entendo porque existam pessoas que não queiram passar por isso. É uma fase de descoberta, em que você se torna uma pessoa diferente, vê o mundo com outros olhos, aprende mais sobre a posição do Brasil no cenário mundial, passa a dar maior valor à sua família, muitas vezes, ao seu país (ao clima e à comida hahaha), passa a pensar no porquê das coisas funcionarem fora e não funcionarem aqui. Se torna mais independente, aprende línguas novas, faz amizades e conhece pessoas incríveis que jamais conheceria se ficasse apenas no seu “mundo”.

Enfim, quem tiver a oportunidade, eu garanto que não se arrependerão. Conheço pessoas que foram e voltaram antes da hora. Não foi tempo perdido. Tenho certeza que serviu pra elas darem maior valor às coisas que as fizeram retornar: seja a falta dos costumes brasileiros, da comida, da família. Um intercâmbio abre a sua mente, é uma experiência nova. É a melhor coisa que existe.

Chegada de Suanny a São Paulo

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