Inverno gelado, renas, trenós e um exemplo para a educação mundial

Priscila Saba é estudante de relações internacionais da Universidade de São Paulo e decidiu ir para a Finlândia, apesar do frio, para viver uma aventura nada convencional. Ela foi estudar na Universidade de Helsinki e voltou carregando saudades da carne de rena, de acampar com seus amigos na floresta e de conviver com uma cultura bem diferente da nossa.

Priscila esteve na Finlândia durante o primeiro semestre de 2011

Por que você escolheu a Finlândia para fazer o seu intercâmbio? A sua escolha profissional interferiu nessa decisão?

Escolhi a Finlândia por ser diferente. Não queria ir a algum lugar que fosse muito lugar-comum ou parecido com São Paulo. Depois desse critério, outros influenciaram minha decisão. O fato de ser um dos melhores ensinos do mundo e de eu, por fazer relações internacionais, me interessar pelo conceito de democracia nórdica.

O que mais te chamava a atenção no país antes mesmo da viagem?

Acho que o que mais chama a atenção na Finlândia é o frio! Fui tão preparada para o pior, que acabei não sofrendo tanto com ele enquanto estava lá. Além disso, também me chamava a atenção a organização social, a qualidade de vida no país. E tudo isso me surpreendeu positivamente, pois por mais que a gente ouça falar sobre a falta de violência, como tudo funciona, vivenciar isso é bem diferente.

Como foi a sua adaptação em relação ao clima?

Foi bem tranquila. Como dizem os finlandeses, não há clima inapropriado, há roupa inapropriada. O mais difícil, acredito, não é o frio em si, apesar de não ser o comum para nós, e sim a falta de luz solar. No alto inverno chega a ter menos de 4 horas de luz por dia. Isso deixa o dia mais triste, é preciso arrumar maneiras de passar o tempo. Em compensação, quando chega o verão, as pessoas não se cansam de sair e a luz solar, que se prolonga até tarde, colabora para todos saírem e ficarem animados.

No sul da Finlândia, a temperatura chega a até -15°C no inverno

Com quem você viveu durante esse período? Como era a cidade?

Eu dividi um apartamento com outra brasileira do mesmo curso que eu. Nós nos demos muito bem, de um modo geral. Helsinki é uma cidade tranquila. É a capital da Finlândia, então onde tudo acontece, mas ao mesmo tempo bem calma se comparada a São Paulo. O transporte é excelente, o frio é tolerável, a qualidade de vida ótima. Diferentemente de São Paulo, mas do mesmo modo que muitos lugares na Europa, o comércio não funciona até tarde e é difícil encontrar comida, seja para entrega, seja para comer no lugar depois de certo horário. A solução para aquela fome no meio da noite era juntar os amigos e dividir um miojo.

Priscila e sua companheira de quarto passeando de trenó

Os finlandeses são receptivos?

Sim, eles são bastante receptivos e demonstram interesse pelos países dos estrangeiros, oferecem ajuda para o que for necessário e procuram integrar os “novatos”.

Você sabia falar alguma coisa em finlandês? Comunicava-se somente em inglês? 

Não sabia falar nada de finlandês antes de ir para lá. Em Helsinki, fiz aulas, mas por ser uma língua completamente diferente, que não tem nem origem indo-europeia, e por a população praticamente inteira falar inglês, aprendi muito pouco. Na cidade, acho que nunca tive problema em me comunicar em inglês, embora no interior, as pessoas mais velhas não soubessem muito bem. No geral, acredito que isso não atrapalhou.

Quais os aspectos culturais que mais te chamaram a atenção? E os aspectos históricos?

Iglus diferenciados

Além disso, os finlandeses bebem muito. Não chega a ser um problema de saúde pública, mas a maior parte da socialização acontece ao redor de bebidas.

Quanto aos aspectos históricos, muita coisa também foi uma surpresa. Primeiro, até 1970, a Finlândia era um país razoavelmente pobre. Outra coisa, foi que ela só se tornou independente em 1917. Até então era posse da Rússia e anteriormente da Suécia. Até hoje, há uma minoria sueca na Finlândia, o que faz o sueco ser uma língua oficial.

Diz a lenda que a esposa Runeberg teria sido a criadora da receita das tortinhas que ficaram conhecidas graças ao poeta

Quais as suas comidas típicas preferidas? E bebidas?

Quanto a bebidas, minha favorita era Fisu, também chamada de Fisk em outros países escandinavos. Era uma bebida feita de ervas e tinha um gosto parecido com Vick Vaporub. Eu achava uma delícia, apesar de muita gente detestar. Eu também gostava muito de Lonkero ou Long Drink, feito de gin e suco de grapefruit.

Quais lugares você mais gostou de visitar no país? O que havia para conhecer?

Minha viagem para a Lapônia provavelmente foi uma das melhores que fiz na vida. Lá, a vida é completamente diferente da nossa, e isso, para mim, é o mais legal de conhecer lugares novos. Além de ter andado de trenó de renas e de huskies, eu aprendi a fazer um iglu de neve, fogueira, e outras técnicas de sobrevivência.

O fenômeno acontece no hemisfério norte, geralmente, entre março e abril ou setembro e outubro

Vi também a aurora boreal e passei bons momentos com meus amigos conversando na floresta. Também gostei muito de visitar uma cidadezinha chamada Porvoo, bem charmosa, com casinhas coloridas e um rio que deixa o ambiente super agradável. É também a cidade natal de Runeberg, e era possível visitar sua casa.

Os preços são muito altos?

Utiliza-se Euro na Finlândia. Os preços são relativamente altos, mas ainda assim mais baixos que o restante da Escandinávia. A diferença com relação a São Paulo acaba não sendo tão exorbitante assim.

Foi necessário viajar de avião para se deslocar da Finlândia para outros lados? O país tem fácil acesso ao restante da Europa?

Por ficar numa península, o acesso por terra da Finlândia para outros países não é o caminho mais fácil. Ainda assim, existem alternativas: balsas para ir até Suécia e Estônia, por exemplo. Também é bem rápido de chegar até São Petersburgo, na Rússia. Eu levei aproximadamente 5h30 para fazer o trajeto. Para outros lugares, entretanto, acredito que o mais fácil seja avião.

Muito se ouve falar do sistema educacional finlandês, o que o Brasil poderia aprender com a Finlândia nesse sentido?

Acredito que a questão educacional finlandesa é muito mais profunda que somente a educação. Numa sociedade mais igualitária, na qual as pessoas possuem verdadeiramente chances de vida parecidas desde o momento em que nascem, pode-se ter um sistema educacional muito mais próximo do ideal. Assim, o sistema é mais aberto, mais voltado para educação de fato e não principalmente para o mercado, na minha opinião.

No ensino superior, essa diferença torna a ideia de “fazer faculdade” algo muito diferente do que é para nós, de uma maneira geral. As pessoas demoram mais para entrar na faculdade, é muito comum tirar um “gap year” ou mesmo dois. Antes de ir para a universidade, no geral, as pessoas viajam por meses, aprendem línguas, moram em outro lugar. Encontrei muitos finlandeses que tinham feito mochilão pela América do Sul e até alguns que lutaram nas missões de paz da ONU.

Do meu ponto de vista, para melhorar o sistema educacional, é preciso melhorar o acesso a ele em todos os níveis, e, para isso, é necessário haver uma sociedade mais igualitária social e economicamente.

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Un pensamiento en “Inverno gelado, renas, trenós e um exemplo para a educação mundial

  1. Eliane Gonçalves

    Muy interesante, Priscila. Creo que tus comentarios van a provocar la curiosidad de otros que desean hacer intercambio. Además, fue una experiencia muy rica y ahora sabemos que hay mucho que ver y aprender en Finlandia. ¡Enhorabuena!

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