Correspondente das terras do Drácula

Marina Castro, estudante de jornalismo da ECA-USP, conta como está sendo seu intercâmbio na Romênia, onde vai passar ao todo sete semanas trabalhando como voluntária em um jardim de infância. Surpresa com a cultura local e peculiaridades como o excesso de cachorros nas ruas, ela fala das vantagens de se fazer uma viagem como essa e do aprendizado que o convívio com pessoas de outros lugares têm trazido para a sua formação pessoal.

Marina no jardim de infância em Cracovia

Marina no jardim de infância em Craiova

Quais as razões que te levaram a escolher a Romênia?

Os intercâmbios sociais da AIESEC são voltados para países em desenvolvimento, o que se resume, principalmente, à América do Sul, África, ao sudeste da Ásia e leste europeu. O meu plano inicial era ir para a Índia ou para algum país africano, mas meus pais acabaram não deixando. Mesmo assim, eu não desisti da ideia de trabalhar com crianças e os países do leste europeu tinham alguns dos melhores programas nessa área, então me voltei pra eles.

Vim parar na Romênia por dois motivos principais: gostei muito da ideia do meu projeto, que é o International Kindergarten, e gostei muito do comitê da AIESEC aqui. Todo mundo com quem eu falei me fez sentir que eles realmente queriam que eu viesse e isso fez toda a diferença.

Você pesquisou por outras alternativas antes de viajar com a AIESEC? O que te chamou a atenção na oportunidade de fazer um intercâmbio social?

Sei que isso não é muito aconselhável, mas tenho que dizer que não pesquisei quase nada. Tomei a decisão em um impulso mesmo, de repente pensei: sou louca pra fazer intercâmbio, por que não fazer um nessas férias? E foi isso. Tive a ideia conversando com um membro da AIESEC da USP, por isso não pesquisei sobre outros modos de fazer um intercâmbio social também.

Tem várias coisas que eu acho legais nesse tipo de viagem: o preço é bem mais baixo do que o de um intercâmbio “normal”, digamos assim, como passar dois meses estudando inglês na Inglaterra, por exemplo. Além disso, é uma oportunidade ótima de trabalhar com algo que você não faz no seu dia a dia. No meu caso, trabalhar com crianças em um jardim de infância, o que eu nunca tinha feito.

As atividades no jardim de infância

De segunda a sexta, as atividades no jardim de infância começam às 8h30

Além disso, vir pra cá sabendo que eu ia trabalhar me fez sentir que meu intercâmbio tinha um significado maior, não só pra mim, mas pra outras pessoas.

Como foram as boas-vindas do grupo de crianças?

Fui super bem recebida! Tanto pelo comitê da AIESEC de Craiova quanto pelas professoras do jardim de infância e pelas crianças. Encontrei pessoas maravilhosas desde o começo, mesmo na rua. Todas as vezes em que fiquei perdida, encontrei alguém pra me ajudar a chegar ao lugar que eu estava indo! Todo mundo me fez sentir bem-vinda e acolhida, o que é muito bom quando você está fazendo um intercâmbio.

Você trabalha com outros voluntários? De quais países?

As amigas voluntárias: da Eslovênia, Rússia e Hong Kong/Austrália

Voluntárias: do Brasil, da Eslováquia, da Rússia e de Hong Kong/Austrália

Eu moro no apartamento dos donos do jardim de infância, que receberam também outras voluntárias. Todas nós participamos do projeto e, por isso, nos hospedaram de graça. A princípio, eu morava com uma menina da Austrália e de Hong Kong, uma da Eslováquia, uma da Rússia e uma de Uganda. Agora, a australiana foi embora e a ugandense foi para outro projeto, então, estou só com a russa e a eslovaca. Mas já conheci gente da Grécia, da Espanha, da Macedônia e mesmo alguns brasileiros!

Qual a sua rotina na Romênia? Que atividades realiza com as crianças?

Eu e os outros voluntários vamos para o jardim de infância mais ou menos às 8h30, de segunda a sexta. Trabalhamos com cerca de 15 crianças, geralmente ensinando músicas simples em inglês, fazendo jogos para elas memorizarem os números, cores, nomes de animais… Também mostramos a elas um pouco dos nossos países, como as bandeiras, as comidas típicas, o clima. Tentamos fazer atividades que sejam divertidas.

Um dia, por exemplo, fizemos chapéus de princesa e de feiticeiro para todo mundo. Muitas vezes também ajudamos as professoras com as atividades que elas prepararam para as crianças. Ajudamos a recortar, a colorir, esse tipo de coisa.

De que maneira a diversidade de pessoas e costumes tem contribuído para o seu aprendizado?

Acho muito interessante saber um pouco mais da cultura de outros países, do que eles fazem de diferente em relação ao Brasil e, especialmente, acho que é bom para ser mais tolerante. Algo que considerado estranho por nós, brasileiros, pode ser comum na em outros lugares. No Brasil, por exemplo, a gente geralmente não tira os sapatos na casa dos outros, tipo, não é considerado muito “elegante” fazer isso. Mas aqui, na Romênia, é justamente o contrário. O seu sapato pode estar sujo e o “deselegante” é não tirar quando você entra na casa de outra pessoa. É bom ter que conviver com esse tipo de diferença para aprender a respeitar as pessoas e entendê-las melhor. Pessoalmente, tem sido um ganho cultural muito grande.

Marina e os amigos estrangeiros

Marina diz que o convívio com outros estrangeiros foi fundamental para se desinibir ao falar inglês

Durante a viagem, sentiu melhoras no inglês? É possível desenvolver bastante a conversação?

Senti melhoras, sim. Com os outros voluntários, aprendi palavras que não sabia e me “soltei” mais na hora de falar. Quando estamos falando uma língua estrangeira, é normal nos sentirmos um pouco acanhados, com medo de pronunciar palavras errado, e esse tipo de coisa. Mas depender do inglês todo dia é bom porque você perde a vergonha. Não importa tanto se está falando tudo certinho, mas se você consegue se fazer entender. Acho que já melhorei bastante meu vocabulário e meu modo de me expressar.

Chegou a aprender palavras em romeno? Quais são as principais dificuldades na hora de se comunicar com as crianças?

Aprendi algumas coisas, sim, mas coisas básicas. Sei falar “oi”, “tchau”, perguntar se está tudo bem, essas coisas. Aprendi os números e as cores também, as crianças me ensinaram! A principal dificuldade na hora de falar com elas é o idioma, com certeza. Elas não falam inglês e nós não falamos romeno, então tem muita mímica envolvida. Mas todos os dias alguém da AIESEC vai com a gente para o jardim de infância para servir de tradutor já ajuda bastante.

De todo modo, é um desafio conversar com alguém que não fala sua língua… É no mínimo interessante hahaha Ah, outra coisa: a maioria das pessoas não sabe, mas romeno é uma língua latina e tem muitas palavras similares ao português. Algumas são iguais mesmo, o que facilita na hora de tentar conversar. Se você falar italiano, melhor ainda, as semelhanças são maiores.

Como é a cidade em que você está? 

A cidade em que estou se chama Craiova, é pequena comparada com São Paulo, tem 300 mil habitantes. Isso foi meio que um choque logo que cheguei haha Não é uma cidade turística, como as cidades da Transilvânia, então, não tem muita coisa pra ver, mas eu gosto bastante daqui. É uma cidade tranquila, limpa, mas com inúmeros cachorros na rua. É impossível andar por Craiova sem topar com pelo menos um cachorro de rua. Mas eles não são agressivos nem nada, ainda bem.

O mais chama a atenção na cultura local?

Uma coisa que me chamou muito a atenção foi a quantidade de pão que as pessoas comem aqui! É sério, em todas as refeições eles comem pão, no café da manhã, no almoço, no jantar, no lanche… Parece bobo, mas fiquei surpresa!

Outra coisa que me surpreendeu foi o quanto as pessoas estão dispostas a te ajudar, mesmo não falando inglês. Não que eu estivesse esperando que todo mundo fosse ser mal-educado, mas desde que cheguei na Romênia encontrei pessoas muito calorosas, dispostas a me ajudar quando precisei de informações, simpáticas… Acho que posso dizer que os romenos são bem amigáveis!

Quais suas comidas e bebidas preferidas?

Gosto bastante de covrigi. São biscoitos que parecem pretzel, geralmente salgados, e muito gostosos! Gosto de mămăligă também, que se parece à polenta. Bebidas preferidas eu não tenho, porque a maioria tem álcool e eu não bebo! hahaha

No Castelo do Drácula

No Castelo do Drácula, onde estão guardadas peças históricas do mobiliário da última rainha romena

Você teve a oportunidade de viajar para outros lugares?

Passei uma semana viajando pela Transilvânia e conheci o castelo do Drácula hahaha É uma região muito legal, achei as cidades muito interessantes, especialmente Brasov, que fica bem perto do castelo de Bran (o do Drácula). Eu e as meninas que moram comigo também estamos planejando ir para Budapeste em um fim de semana, mas ainda não temos certeza se vai dar certo.

Que lições você vai levar dessa viagem?

Acho que são lições relacionadas a tolerância e adaptação. Viver num país bem diferente do meu, com pessoas que têm hábitos e criações diversas está sendo um desafio, mas também me ajuda a expandir meus horizontes, a ter a mente mais aberta, a julgar menos. Também tive que lidar com situações inesperadas e me virar, porque nem sempre um intercâmbio é como você imagina que vai ser, né? Então acho que é isso, esse intercâmbio está sendo bom para me conhecer e me desenvolver melhor.

Você teve alguma dificuldade de adaptação ?

Sinto saudade da minha família sim, mas não acho que isso tenha me prejudicado ou dificultado a minha adaptação aqui na Romênia. Talvez o fato de já morar longe dos meus pais há dois anos ajude, não sei. Mas me senti tão acolhida que não tive choque cultural nem nada do tipo. Minha adaptação foi bem tranquila. O maior problema foi mesmo o frio haha agora já está esquentando um pouco, mas acho que nunca cheguei a me acostumar com a temperatura negativa. Fora isso, tudo correu sem preocupações.

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