Uma viagem pela Ásia, e mais do que ele imaginou fazer em seus sonhos

Jorge viajou pela Ásia durante sete meses, de dezembro de 2012 a julho de 2013

Jorge von Kostrisch atualmente é tradutor, se formou pela USP em relações internacionais em 2010 e é autor do blog Wanderlust Bug, que surgiu da viagem que ele fez pela Ásia. No final de 2012, Jorge decidiu experimentar algo novo e que sempre teve vontade de fazer: dedicar um bom tempo ao leve prazer de viajar. Durante os primeiros meses de sua viagem, ele fez um intercâmbio social e depois traçou um roteiro por diferente países da Ásia. 

Por que fazer mais do que um intercâmbio social? Depois de realizar trabalho voluntário, você esteve em uma infinidade de lugares. Quais os benefícios e diferenças de cada uma dessas experiências?

Desde sempre, fui fascinado com a ideia de viajar sem prazos, restrições de tempo, compromissos a cumprir ou outras obrigações – explorar o mundo em meus próprios termos, no meu próprio ritmo, e aberto às experiências e pessoas que cada lugar me proporcionasse. Deste modo, sempre esteve nos meus planos uma viagem prolongada e que passasse por muitos lugares. Ao mesmo tempo, reconheço que uma estadia maior em um único lugar é capaz de te oferecer uma visão mais profunda e diversa daquele país e daquela cultura, além da oportunidade de criar laços sociais, se inserir no modo de vida daquela população e fazer parte de um lugar. Por fim, também queria que minha viagem tivesse um aspecto social positivo, que eu deixasse algum lugar pelo menos um pouquinho melhor do que o encontrei. Foi para conciliar todos esses desejos que decidi começar com um trabalho voluntário por 3 meses, para depois iniciar um roteiro mais itinerante.

Quando se está parado em algum lugar, e especialmente se você assume algum papel naquela sociedade (como um trabalho voluntário), sua exposição ao real modo de vida local e à cultura dos nativos é muito maior do quando se está de passagem. É ali que o famoso choque cultural de fato acontece, que você é desafiado por coisas tão simples como uma forma diferente de encarar um simples “por favor”, “desculpe” e “obrigado”, por exemplo. Na família com a qual vivi na Índia, estas três expressões eram proibidas  – não se pedia “por favor” porque é obrigação da família atender suas necessidades; não se pedia desculpas, porque jamais alguém machucaria ou ofenderia alguém da família intencionalmente, razão pela qual qualquer ofensa era automaticamente perdoada sem necessidade de desculpas; e não se dizia “obrigado” porque não há favores entre a família, toda ajuda é parte da missão de vida de seus membros. A omissão de três expressões comuns trazia todo um novo entendimento de família e relacionamento, e estas coisas só aparecem com a convivência.

Quem foram seus principais conselheiros na hora de se decidir pelo roteiro da viagem? Você estipulava regras e seguia seus planos? Mudava de ideia de acordo com a experiência no local?

Muita gente me apoiou na ideia de viajar, mas o roteiro da viagem foi uma coisa bem minha mesmo. Eu decidi pela Ásia porque queria algo distante da minha realidade, pela história milenar, pela imensa variedade de lugares e culturas, e pelo preço. Além disso, sempre quis fazer um voluntariado na Índia. Saí do Brasil apenas com o plano de trabalhar em Calcutá, e com uma vaga ideia dos países que eu queria visitar, mas sem a menor ideia de que cidades e lugares visitar neles. Eu ia decidindo os próximos passos ao longo do caminho, e muitas vezes meus planos mudavam. No Nepal, havia planejado ficar uma semana, mas me apaixonei pelo país e acabei ficando um mês inteiro e escalando uma montanha, depois de conhecer e me juntar a um casal de americanos com experiência nisto. Eu procurei ao máximo não assumir compromissos (passagens aéreas, reservas de hotel, etc) que limitassem a flexibilidade do meu roteiro. Depois de um tempo, eu já chegava em cidades desconhecidas no meio da madrugada sem nem uma reserva de pousada, e tudo dava certo. Aprendi que em todos os lugares do mundo, os seres humanos têm as mesmas necessidades que você, e nunca será difícil (e muitas vezes será mais divertido) apenas deixar acontecer.

Uma experiência incrível: paragliding em Pokhara, no Nepal

Nessas condições, como fazer para não perder as contas e gastar mais do que o imaginado?

Este é um ponto delicado. Eu fiz uma estimativa de gastos diários antes da minha viagem e todos os dias anotava tudo o que gastava e comparava com o planejado. Se ultrapassava, segurava um pouco mais nos dias seguintes. É um exercício difícil, porque passei por 14 moedas diferentes, mas o planejamento ajudou. Acho importante, porém, não se prender demais ao orçamento quando oportunidades únicas aparecem  – como fazer o curso de mergulho na Malásia ou voar de paraglide no Nepal. Dinheiro se resolve depois, mas certas coisas só cruzam seu caminho uma vez. Com o passar do tempo, me acostumei a viajar usando apenas um mínimo, e parei de fazer um controle tão rígido – fui controlando apenas quanto dinheiro ainda tinha, e acabou dando certo. É só não exagerar, e a Ásia é incrivelmente barata.

Qual o lugar que mais te marcou nessa viagem, que você disse pra si mesmo que teria que voltar? Qual a história desse lugar?

É uma pergunta difícil, porque os lugares te marcam de maneiras diferentes. Tem o maravilhamento das grandes obras como o Taj Mahal, Angkor Wat, e a Shwedagon Paya (na Índia, Camboja e Myanmar, respectivamente). Há o embevecimento das belezas naturais, como os himalaias, as florestas dos Laos, as ilhas da Tailândia e da Malásia. Há as culturas incríveis como na Índia e na Indonésia. Acho que um lugar que eu preciso voltar é Myanmar. É o país com o conjunto da obra mais absolutamente impressionante, na minha opinião.

Shwedagon Paya, em Yangon

Há a Shwedagon Paya em Yangon e os templos de Bagan. Há uma comida surpreendente e única. E há um povo que é indiscutivelmente o mais simpático, amigável e acolhedor que já vi na vida (o que é dizer muito para os padrões do sudeste asiático – é difícil superar as pessoas do Laos e do Nepal neste quesito). Em cada restaurante em que eu sentava, pessoas me chamavam para suas mesas e me pagavam comida e bebida.  Não podia esperar um ônibus em pé, que pessoas, até senhoras, se levantavam para me oferecer o assento. Um amigo pegou alguns ônibus da capital até uma cidade próxima, e os nativos fizeram companhia para ele até o destino  – a cada vez que um nativo tinha de descer do ônibus ou seguir um caminho diferente, ele “passava” meu amigo para a responsabilidade de outro, de modo que ele sempre esteve guiado e acompanhado até o final. Myanmar também é o país da região, certamente por conta do isolamento político das últimas décadas, onde a cultura local está mais viva em termos de vestuário, costumes e culinária. Certamente voltarei lá.

O Hawa Mahal, Índia: esta estrutura com dezenas de janelinhas foi construída para que as mulheres da corte do Rajput local pudessem olhar para fora do palácio com privacidade e ver a vida na cidade rosa

Que tipos de costumes te surpreenderam durante a viagem? Em algum momento você sentiu necessidade de mudar sua maneira de se comportar para não ir “contra” a cultura local?

Muitas vezes. Minha “mãe” indiana, por exemplo, não admitia que eu lavasse a louça, ajudasse na casa, nem mesmo que eu mesmo me servisse de comida, já que todas estas tarefas são responsabilidades da mulher. É difícil para um ocidental se controlar neste tipo de situação, mas é necessário respeitar os costumes da cultura local. Para as mulheres, isto é particularmente verdadeiro, já que as culturas asiáticas tendem a ser bastante conservadoras, e os códigos de vestimenta e conduta para elas são bem rígidos.

Existe muita variedade de um país asiático para o outro em termos culinários? Alguma comida não te desceu? 

Típica refeição indiana: arroz, dahl e subzhi, tudo bem apimentado e comido com a mão

A Tailândia tem uma culinária absolutamente espetacular, tida como uma das melhores do mundo, muito rica em frutos do mar e sopas deliciosas. Entre as coisas mais estranhas que vi, está o ovo de pato cozido (eles deixam o patinho de desenvolver lá dentro até metade do caminho, depois cozinham e come-se os pedaços do feto com uma colher, com bico e tudo), uma iguaria comum no sudeste asiático continental. Na Tailândia é comum ver espetinhos de besouros, escorpiões e aranhas, geralmente caramelizados e crocantes.

Você enfrentou problemas para se comunicar com as pessoas nativas? Só o inglês é suficiente para fazer uma viagem como essa? 

Nunca passei dificuldade para me fazer entender – o inglês é bem suficiente na Índia, onde muita gente conhece o idioma. E também é fácil se comunicar em inglês com as pessoas que lidam com estrangeiros em qualquer país (atendentes de pousadas, taxistas, operadores de turismo, etc). A maior dificuldade está mesmo em entabular uma conversação com pessoas comuns – passei uma tarde inteira em um mercado popular em Bangkok procurando um presente específica pra minha família indiana, e nenhum dos lojistas falava uma palavra de inglês. No dia a dia, porém, acaba sendo engraçado, como um bêbado no Laos que tentava a todo custo conversar conosco, mas só conhecia duas expressões: “Thank you” e “Darling, I Love You”.

Quais as principais descobertas que você fez sobre si mesmo? Que tipo de coisas nunca tinha imaginado que fosse capaz de provar, sentir ou viver?

Acho que uma viagem é uma maneira de se expor a situações inteiramente novas, e desta maneira se forçar a usar aspectos da sua personalidade, conhecimentos e habilidades que jamais foram desafiados em seu país de origem. Esse exercício acaba por revelar e ressignificar muitos comportamentos, limites e traços que estavam escondidos da sua própria percepção, levando-o a entender melhor a si mesmo, e a compreender fatos passados de sua vida sob uma nova luz. Com reflexão, algumas destas descobertas se tornam lições. Eu aprendi, por exemplo, a  confiar mais na minha capacidade de resolver e me sair bem de qualquer situação inesperada, o que me fez abrir mão da ansiedade de controlar todos os aspectos da minha vida ou planejar cada passo, me abrindo mais à espontaneidade  – e descobrindo nelas novas oportunidades. Aprendi a aceitar mais as coisas e as pessoas como são, e não a tentar enquadrá-las no que eu desejaria que fossem. Cada curva da estrada está cheia de lições para quem mantém os olhos abertos.

Bagan, Myanmar

Entre as coisas inesperadas, acho que jamais tinha sonhado que fosse abraçar um tigre adulto na vida… Porém, acho que você descobre o inusitado em pequenos detalhes no dia a dia da viagem. Em Myanmar, por exemplo, passei uma noite em claro em uma viagem de 15h de ônibus de Yangon a Bagan, chegando no meio da madrugada a uma beira de estrada sem ninguém. Conheci uma médica inglesa que estava no mesmo ônibus, e juntos encontramos um carroceiro que aceitou nos levar até a cidade e à pousada por um preço. Fomos atrás da carroça com as malas, e chegamos antes do amanhecer na pousada, quando um grupo de estrangeiros estava saindo em bicicletas para assistir ao nascer do sol de cima de um dos mais de 3000 templos da planície de Bagan. Nos juntamos a eles, e no caminho fui conversando com essa média, que era hematologista, sobre seu trabalho, ela tratava crianças com leucemia, na Inglaterra. Conversar sobre leucemia com uma médica britânica, enquanto andava de bicicleta de madrugada nos confins de Myanmar, rumo a templo de mais de mil anos depois de andar de carroça? Nem em meus sonhos mais loucos.

Categorías: Entrevistas | Etiquetas: , , , | Deja un comentario

Navegador de artículos

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión /  Cambiar )

Google photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google. Cerrar sesión /  Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión /  Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión /  Cambiar )

Conectando a %s

Crea un blog o un sitio web gratuitos con WordPress.com.

A %d blogueros les gusta esto: