Um concurso, e a oportunidade de conhecer o Azerbaijão

Passagem pela cidade de Lahiji, no Azerbaijão

Passagem pela cidade de Lahiji, no Azerbaijão

Ana Carolina Marques é estudante de jornalismo da Universidade de São Paulo e esteve no Azerbaijão durante dez dias no ano passado. Ela foi uma das vencedoras da primeira edição de um concurso promovido pelo governo local que premia estudantes de diferentes países. Para conseguir a vaga, Ana Carolina escreveu sobre a questão energética do Azerbaijão e compartilha sua experiência aqui: 

Por que você decidiu se inscrever nesse concurso?

Me candidatar ao concurso do Azerbaijão foi um passo natural em um costume já absorvido de olhar oportunidades como elas são – oportunidades. Chances, que dependem apenas de mim. Mas nada como passar um tempo num país estranho (“que causa espanto ou admiração pela novidade; desconhecido, novo” e “que, de alguma forma, foge aos padrões de uso, aos costumes estipulados pela sociedade”).

Quem é a Ana Carolina? De que maneira o gosto por viajar entrou na sua vida?

Centro velho de Baku, capital do Azerbaijão. Atrás, as Flame Towers, onde são projetados vídeos e cores durante a noite

Centro velho de Baku, capital do Azerbaijão. Atrás, as Flame Towers, onde são projetados vídeos durante a noite

Se eu escrevesse uma lista aqui de onde já estive corro o risco de parecer prepotente ou elitista ou sei lá que imagem pode ter alguém que nasceu fora do Brasil e já cruzou muitas fronteiras. Mas, na real, viajar sempre fez parte de mim.  E, honestamente, nunca fiz nada de extraordinário: meus pais se mudaram para um país no sudeste asiático à procura de trabalho. Nasci na Malásia. Mudaram para um país europeu também por trabalho. Cresci um pouco no interior francês.  Viemos para o Brasil. Comecei a escola em São Paulo. Tive a chance de fazer intercâmbio subsidiado para outro país europeu durante as férias. Aprendi alemão. Estudei bastante e entrei na USP. Durante uma aula de jornalismo econômico, uma professora me convida para estudar Relações Internacionais com bolsa na Hungria. Primeiro intercâmbio, um semestre. Descubro a magia de uma viagem low-cost. Faço mochilão. Um professor de lá consegue bolsa para mim na faculdade onde dava aula nos EUA. Segundo intercâmbio, outro semestre. Ninguém na Escola de Comunicações e Artes da USP quer uma vaga para estudar no Chile. Em agosto, se tudo der certo, terceiro intercâmbio, mais um semestre. É claro que isso tudo é fruto de muito apoio familiar – e por muito tempo achei que só dessa maneira era possível viajar. Mas não.

O que você recomenda para quem não teve a mesma “sorte”?

Antes de tirar férias por 15 dias ou economizar durante um tempão e gastar tudo em passagens e diárias, existe um universo inteiro de modos alternativos de viajar. Um deles é criar sua carreira viajando (meu preferido é um colega jornalista brasileiro que mora normalmente em Moscou que me disse “Jornalismo? Ah, isso é hobby. Eu gosto mesmo é de viajar”. Ele deve ter ido a quase 70 países já). Outro é desenvolver um estilo de vida mais barato. Tem também ter uma rede consistente de contatos. E enfim, dentre tantos mais, é prestar atenção em concursos (o Catraca Livre publica várias oportunidades). Principalmente quando vem de um país com péssima imagem internacional com muito dinheiro para gastar.

O que você sabia sobre o país no momento em que decidiu escrever a redação e participar do programa organizado pelo governo local? Quais critérios você usou para escolher o tema e o enfoque do texto?

A primeira coisa que pensei quando li o tema da redação, “O que eu sei sobre o Azerbaijão?” foi exatamente o que muita gente deve ter pensado: “Nada”. Até duvidei da validade do programa, mas quando vi que havia sido expedido por um ministério de lá, por meio da embaixada no Brasil, e enviado com carta ao Rodas (!), decidi acreditar que era de verdade.

“No geral, conheci vários lugares, mas não tenho o direito de dizer que conheço o Azerbaijão”, afirma a estudante[/caption]

Entre os temas listados para a redação, inicialmente achei que fosse fazer sobre geopolítica ou relações internacionais, as áreas que mais gosto no jornalismo. Uma rápida pesquisa em sites de notícia, porém, me mostraram como isso podia ser complicado: todas as referências ao país mencionavam o conflito com a Armênia, tráfico de drogas e pessoas, dependência do petróleo e por aí vai.

Como eu queria ganhar – e assim supus que falar bem do governo seria um passo necessário -, mas havia um resquício de mal-estar jornalístico – que me impediu de ser abertamente parcial no tratamento da questão que fosse a ser abordada -, decidi escolher algum tema menos polêmico. E de repente pensei: “Será que existe energia renovável no Azerbaijão regado a petróleo?”. Outra pesquisa inicial mostrava que sim, inclusive com planos de governo para esse propósito. Contatei um amigo russo (que eu havia conhecido no intercâmbio para a Hungria) e ele, por pura sorte, tinha dois amigos azerbaijanos – um deles fazendo mestrado exatamente nessa área sustentável! E meu pai já havia trabalhado com um cara que atuava na indústria de petróleo em Baku, capital azerbaijana.

Delegação Brasileira, selecionada por meio do concurso para participar da viagem

Delegação Brasileira, selecionada por meio do concurso para participar da viagem

Por isso, devo ter decepcionado quem me veio perguntar nas últimas semanas sobre como arranjei minhas fontes – contatos e sorte. Dali em diante foi fácil, prática de jornalismo e uma pitada de puxa-saquismo do governo. Isso aliado ao interesse estratégico da parte deles em trazer uma jornalista jovem, de São Paulo, formanda na USP, trabalhando em um site de relações internacionais explicam, a meu ver, por que fui uma das ganhadoras. Até o dia em que soube do resultado, porém, eu estava mais do que no escuro. E o que pensei se mantém até hoje: “Essa viagem é a coisa mais bizarra e pitoresca que já aconteceu comigo”.

Quais as suas expectativas sobre a viagem?

Conhecer um país que, de outra maneira, nunca teria a chance de conhecer. E fazer isso de graça.

Em qual contexto você encontrou o país? Qual a história que o governo local tentou transmitir aos visitantes estrangeiros?

Em uma grande bolha. Desde o começo da viagem percebi que seria um rolê riqueza. Ficamos em um hotel super moderno em Baku, com todas as refeições incluídas. No primeiro dia era a empolgação de “nossa, tá acontecendo mesmo!”. No dia seguinte era a de começar a conhecer os ganhadores dos outros países. Mas logo percebi que nossos passeios – fomos a vilas no interior, à Ganja, segunda maior cidade do país, e a pontos turísticos na capital – eram constantemente guiados.

Jantar à beira do Mar Cáspio

Jantar à beira do Mar Cáspio

Eu olhava através da janela do quarto, à beira do Mar Cáspio e do boulevard, por cima dos prédios bonitos e dos dias ensolarados, e pensava “Não é possível cara, não pode ser só disso que esse país vive”. Me senti excluída dentro do país, excluída dele mesmo. Nas vilazinhas, andávamos por uma rua apenas, bem turística. Em Ganja passamos mais tempo na piscina do hotel que visitando a cidade. Eu dependia de umas americanas que falavam russo para poder saber o que as pessoas nas ruas falavam, mas os guias sempre nos apressavam ou simplesmente nos impediam de falar. Uma hora tivemos até escolta policial. Os guias mesmo não falavam nada de mais político (apesar de eu sentir que um deles, o Kamran, pensava coisas que não eram faladas).

E para completar, aconteceram umas coisas estranhas. Ficávamos parados no ônibus por muito tempo, contornávamos grandes áreas, uns passaportes desapareceram, sei lá. Foi estranho (dessa vez de “que não se conhece ou reconhece; que desperta sensação incômoda de estranheza” e de “misterioso, enigmático ou que levanta suspeitas”). Algumas pessoas confirmavam essa estranheza, outras falavam que era teoria da conspiração.

Quais histórias “reais” realmente foi possível captar? 

Além das poucas pessoas que as americanas interceptavam nas ruas, o único contato que nós tínhamos era com os guias. O mais legal era o Kamran, que ao fim da viagem vestia a camisa do Brasil, passava cantadas em português e bebia cachaça. O triste é que, no último dia da viagem, ele nos contou que tinha sido convocado para um ano de treinamento militar no Iraque. E ele tinha o mestrado em Praga encaminhado! Não entendi nada, além de suspeitar de um governo que prefere mandar um graduado em engenharia do petróleo para campos de batalha em vez de reforçar a indústria nacional.

Menino com quem Ana jogou bola no centro da cidade velha

Menino com quem Ana jogou bola no centro da cidade velha

Desde então, ele publicou uma foto no Facebook de uniforme e, em outra vez, anunciou que havia terminado o serviço. Mas não poderia sair do país e cumprir a promessa que havia nos feito de visitar o Brasil. As únicas outras estórias das quais me lembro foi quando conversei com ele e o outro guia sobre homossexuais (o que incluiu a opinião de que era melhor bater no cara do que deixar a mãe ou a irmã ver dois homens se beijando) e quando andei sozinhas pelo centro (e nessas fui de jogar bola com o garotinho no meio da cidade velha até sentir olhares sobre mim quando passava por uma praça na parte moderna).

De que nacionalidade eram as outras pessoas que viajaram com você e os brasileiros? Elas também partilhavam de uma visão crítica sobre a forma como a viagem estava sendo conduzida?

Os outros ganhadores foram o grande ganho da viagem. Tinha gente dos EUA, Croácia, Lituânia, Egito, Marrocos e África do Sul. Não lembro se eram 70 ou 90 pessoas no total. Todo mundo estava muito empolgado, sempre. Conversávamos o dia todo, fazíamos festas à noite, era realmente muito divertido. Nos ônibus, onde passávamos incontáveis horas, eu ficava sempre debruçada sobre os bancos falando com os desconhecidos ao invés de ficar no fundão com os outros brasileiros (nada contra eles, claro, mas julguei mais enriquecedor passar tempo com pessoas que eu provavelmente nunca mais veria na vida).

 

Rhys e Ana Carolina na festa de despedida do Azerbaijão

Nessas comecei a conhecer pessoas incríveis. Dos EUA havia uma menina chamada Rhys com a qual teve um click de amizade imediato. Muitíssimo inteligente e aberta, ela tinha um espírito de viajante similar ao meu e, além de também ficar desconfiada com a viagem, já havia morado um ano na Rússia e assim tinha muito mais conhecimento da área. Outra menina, Taylor, quebrou meus estereótipos sobre republicanos norte-americanos. Outra, a Sam, me mostrou quão desrespeitosa culturamente uma pessoa pode ser. Entre os croatas, conversei com alguns que eram também muito espertos, desde uma jornalista também chamada Ana que era ligada no 220V, até um físico de cabelo comprido chamado Mattias que checava no GPS se o ônibus fazia caminhos longos demais. Entre os sul-africanos, uma menina chamada Iram era como uma jóia escondida e um cara chamado Luyanda era uma caricatura por si só. Os egípcios estavam em alvoroço por conta da junta militar que havia acabado de tomar poder no país (e entre eles conversei com pessoas de opiniões diametralmente opostas), mas não deixavam de cantar e dançar muito. Não fiquei muito próxima dos marroquinos ou dos lituanos.

Uma grande descoberta que eu não previa foi a relação com todas essas pessoas. Senti na pele o peso de estereótipos e rasas opiniões culturais. De como é fácil conjugar um indivíduo sob uma categoria total e socialmente construída que é a nacionalidade. De que responder vinte vezes “Meu nome é Ana e sou do Brasil” uma hora cansa, mas às vezes é tudo que as pessoas querem ouvir de você. Conversar de verdade, de verdade mesmo, eu sabia que era difícil. Essa viagem foi um teste. Que deu certo, por sinal: já visitei a casa de três pessoas que conheci lá – da Rhys, em Chicago, e da Ana e do Toni, na Croácia.

Você faria tudo de novo sabendo que seria como foi? Recomenda a experiência?

Sim. Não poderia recomendar mais para quem está tentando este ano. Do modo que for, vale a pena. Aprendi muito. Sobre o Azerbaijão em si, sobre como lidar com esse tipo de viagem, sobre estrangeiros, sobre mim mesma. Minha vida não correu riscos e comi bem pra caramba, também é importantíssimo notar.

Depois da viagem, você continua acompanhando a trajetória do país?

Houve “eleições” no Azerbaijão e algo tem sido falado sobre a importância geopolítica na órbita russa. Não aparece muito na mídia brasileira ou na exterior que normalmente acesso, mas certamente vou clicar caso o nome apareça na manchete.

Presente comprado para a mãe e que traz um símbolo curvado típido da cultura local, a "buta"

Presente comprado para a mãe e que traz um símbolo curvado típico da cultura local, a “buta”

Qual seria o balanço da experiência?

Enfim, no geral, conheci vários lugares, mas não tenho o direito de dizer que conheço o Azerbaijão. Tenho várias estórias fascinantes, desde alguns dos outros ganhadores que são pessoas fantásticas ou muito escrotas, até o dia em que resolvi me perder na cidade antiga e acabei jogando futebol com um menino, mas, de novo, não me sinto do mesmo modo que eu me sentiria caso tivesse viajado por conta própria. Ainda assim, é claro, eu viajei porque não foi por conta própria. É o grande dilema de viagens pagas a jornalistas, descobri. Porque não conseguimos (ou eu não consigo) ser apenas uma turista e ir turistando feliz, mas também não consigo ter as liberdades de ir e vir ou de expressão às quais estou acostumada e nas quais ponho muito valor. Ah, e tem a questão diplomática, claro: lá eu era representante do Brasil, a convite do Ministérios de Juventude e Esporte do Azerbaijão. Eu não era apenas Ana. Isso dava um peso maior a o que eu fazia ou a o que eu falaria. Peso com o qual ainda preciso me acostumar caso venha a participar de outras empreitadas como essa.

Se interessou pela viagem? Leia mais acessando o texto de Ana Carolina sobre o assunto e também a redação que ela fez para o concurso.

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