Entrevistas

Um concurso, e a oportunidade de conhecer o Azerbaijão

Passagem pela cidade de Lahiji, no Azerbaijão

Passagem pela cidade de Lahiji, no Azerbaijão

Ana Carolina Marques é estudante de jornalismo da Universidade de São Paulo e esteve no Azerbaijão durante dez dias no ano passado. Ela foi uma das vencedoras da primeira edição de um concurso promovido pelo governo local que premia estudantes de diferentes países. Para conseguir a vaga, Ana Carolina escreveu sobre a questão energética do Azerbaijão e compartilha sua experiência aqui: 

Por que você decidiu se inscrever nesse concurso?

Me candidatar ao concurso do Azerbaijão foi um passo natural em um costume já absorvido de olhar oportunidades como elas são – oportunidades. Chances, que dependem apenas de mim. Mas nada como passar um tempo num país estranho (“que causa espanto ou admiração pela novidade; desconhecido, novo” e “que, de alguma forma, foge aos padrões de uso, aos costumes estipulados pela sociedade”).

Quem é a Ana Carolina? De que maneira o gosto por viajar entrou na sua vida?

Centro velho de Baku, capital do Azerbaijão. Atrás, as Flame Towers, onde são projetados vídeos e cores durante a noite

Centro velho de Baku, capital do Azerbaijão. Atrás, as Flame Towers, onde são projetados vídeos durante a noite

Se eu escrevesse uma lista aqui de onde já estive corro o risco de parecer prepotente ou elitista ou sei lá que imagem pode ter alguém que nasceu fora do Brasil e já cruzou muitas fronteiras. Mas, na real, viajar sempre fez parte de mim.  E, honestamente, nunca fiz nada de extraordinário: meus pais se mudaram para um país no sudeste asiático à procura de trabalho. Nasci na Malásia. Mudaram para um país europeu também por trabalho. Cresci um pouco no interior francês.  Viemos para o Brasil. Comecei a escola em São Paulo. Tive a chance de fazer intercâmbio subsidiado para outro país europeu durante as férias. Aprendi alemão. Estudei bastante e entrei na USP. Durante uma aula de jornalismo econômico, uma professora me convida para estudar Relações Internacionais com bolsa na Hungria. Primeiro intercâmbio, um semestre. Descubro a magia de uma viagem low-cost. Faço mochilão. Um professor de lá consegue bolsa para mim na faculdade onde dava aula nos EUA. Segundo intercâmbio, outro semestre. Ninguém na Escola de Comunicações e Artes da USP quer uma vaga para estudar no Chile. Em agosto, se tudo der certo, terceiro intercâmbio, mais um semestre. É claro que isso tudo é fruto de muito apoio familiar – e por muito tempo achei que só dessa maneira era possível viajar. Mas não.

O que você recomenda para quem não teve a mesma “sorte”?

Antes de tirar férias por 15 dias ou economizar durante um tempão e gastar tudo em passagens e diárias, existe um universo inteiro de modos alternativos de viajar. Um deles é criar sua carreira viajando (meu preferido é um colega jornalista brasileiro que mora normalmente em Moscou que me disse “Jornalismo? Ah, isso é hobby. Eu gosto mesmo é de viajar”. Ele deve ter ido a quase 70 países já). Outro é desenvolver um estilo de vida mais barato. Tem também ter uma rede consistente de contatos. E enfim, dentre tantos mais, é prestar atenção em concursos (o Catraca Livre publica várias oportunidades). Principalmente quando vem de um país com péssima imagem internacional com muito dinheiro para gastar.

O que você sabia sobre o país no momento em que decidiu escrever a redação e participar do programa organizado pelo governo local? Quais critérios você usou para escolher o tema e o enfoque do texto?

A primeira coisa que pensei quando li o tema da redação, “O que eu sei sobre o Azerbaijão?” foi exatamente o que muita gente deve ter pensado: “Nada”. Até duvidei da validade do programa, mas quando vi que havia sido expedido por um ministério de lá, por meio da embaixada no Brasil, e enviado com carta ao Rodas (!), decidi acreditar que era de verdade.

“No geral, conheci vários lugares, mas não tenho o direito de dizer que conheço o Azerbaijão”, afirma a estudante[/caption]

Entre os temas listados para a redação, inicialmente achei que fosse fazer sobre geopolítica ou relações internacionais, as áreas que mais gosto no jornalismo. Uma rápida pesquisa em sites de notícia, porém, me mostraram como isso podia ser complicado: todas as referências ao país mencionavam o conflito com a Armênia, tráfico de drogas e pessoas, dependência do petróleo e por aí vai.

Como eu queria ganhar – e assim supus que falar bem do governo seria um passo necessário -, mas havia um resquício de mal-estar jornalístico – que me impediu de ser abertamente parcial no tratamento da questão que fosse a ser abordada -, decidi escolher algum tema menos polêmico. E de repente pensei: “Será que existe energia renovável no Azerbaijão regado a petróleo?”. Outra pesquisa inicial mostrava que sim, inclusive com planos de governo para esse propósito. Contatei um amigo russo (que eu havia conhecido no intercâmbio para a Hungria) e ele, por pura sorte, tinha dois amigos azerbaijanos – um deles fazendo mestrado exatamente nessa área sustentável! E meu pai já havia trabalhado com um cara que atuava na indústria de petróleo em Baku, capital azerbaijana.

Delegação Brasileira, selecionada por meio do concurso para participar da viagem

Delegação Brasileira, selecionada por meio do concurso para participar da viagem

Por isso, devo ter decepcionado quem me veio perguntar nas últimas semanas sobre como arranjei minhas fontes – contatos e sorte. Dali em diante foi fácil, prática de jornalismo e uma pitada de puxa-saquismo do governo. Isso aliado ao interesse estratégico da parte deles em trazer uma jornalista jovem, de São Paulo, formanda na USP, trabalhando em um site de relações internacionais explicam, a meu ver, por que fui uma das ganhadoras. Até o dia em que soube do resultado, porém, eu estava mais do que no escuro. E o que pensei se mantém até hoje: “Essa viagem é a coisa mais bizarra e pitoresca que já aconteceu comigo”.

Quais as suas expectativas sobre a viagem?

Conhecer um país que, de outra maneira, nunca teria a chance de conhecer. E fazer isso de graça.

Em qual contexto você encontrou o país? Qual a história que o governo local tentou transmitir aos visitantes estrangeiros?

Em uma grande bolha. Desde o começo da viagem percebi que seria um rolê riqueza. Ficamos em um hotel super moderno em Baku, com todas as refeições incluídas. No primeiro dia era a empolgação de “nossa, tá acontecendo mesmo!”. No dia seguinte era a de começar a conhecer os ganhadores dos outros países. Mas logo percebi que nossos passeios – fomos a vilas no interior, à Ganja, segunda maior cidade do país, e a pontos turísticos na capital – eram constantemente guiados.

Jantar à beira do Mar Cáspio

Jantar à beira do Mar Cáspio

Eu olhava através da janela do quarto, à beira do Mar Cáspio e do boulevard, por cima dos prédios bonitos e dos dias ensolarados, e pensava “Não é possível cara, não pode ser só disso que esse país vive”. Me senti excluída dentro do país, excluída dele mesmo. Nas vilazinhas, andávamos por uma rua apenas, bem turística. Em Ganja passamos mais tempo na piscina do hotel que visitando a cidade. Eu dependia de umas americanas que falavam russo para poder saber o que as pessoas nas ruas falavam, mas os guias sempre nos apressavam ou simplesmente nos impediam de falar. Uma hora tivemos até escolta policial. Os guias mesmo não falavam nada de mais político (apesar de eu sentir que um deles, o Kamran, pensava coisas que não eram faladas).

E para completar, aconteceram umas coisas estranhas. Ficávamos parados no ônibus por muito tempo, contornávamos grandes áreas, uns passaportes desapareceram, sei lá. Foi estranho (dessa vez de “que não se conhece ou reconhece; que desperta sensação incômoda de estranheza” e de “misterioso, enigmático ou que levanta suspeitas”). Algumas pessoas confirmavam essa estranheza, outras falavam que era teoria da conspiração.

Quais histórias “reais” realmente foi possível captar? 

Além das poucas pessoas que as americanas interceptavam nas ruas, o único contato que nós tínhamos era com os guias. O mais legal era o Kamran, que ao fim da viagem vestia a camisa do Brasil, passava cantadas em português e bebia cachaça. O triste é que, no último dia da viagem, ele nos contou que tinha sido convocado para um ano de treinamento militar no Iraque. E ele tinha o mestrado em Praga encaminhado! Não entendi nada, além de suspeitar de um governo que prefere mandar um graduado em engenharia do petróleo para campos de batalha em vez de reforçar a indústria nacional.

Menino com quem Ana jogou bola no centro da cidade velha

Menino com quem Ana jogou bola no centro da cidade velha

Desde então, ele publicou uma foto no Facebook de uniforme e, em outra vez, anunciou que havia terminado o serviço. Mas não poderia sair do país e cumprir a promessa que havia nos feito de visitar o Brasil. As únicas outras estórias das quais me lembro foi quando conversei com ele e o outro guia sobre homossexuais (o que incluiu a opinião de que era melhor bater no cara do que deixar a mãe ou a irmã ver dois homens se beijando) e quando andei sozinhas pelo centro (e nessas fui de jogar bola com o garotinho no meio da cidade velha até sentir olhares sobre mim quando passava por uma praça na parte moderna).

De que nacionalidade eram as outras pessoas que viajaram com você e os brasileiros? Elas também partilhavam de uma visão crítica sobre a forma como a viagem estava sendo conduzida?

Os outros ganhadores foram o grande ganho da viagem. Tinha gente dos EUA, Croácia, Lituânia, Egito, Marrocos e África do Sul. Não lembro se eram 70 ou 90 pessoas no total. Todo mundo estava muito empolgado, sempre. Conversávamos o dia todo, fazíamos festas à noite, era realmente muito divertido. Nos ônibus, onde passávamos incontáveis horas, eu ficava sempre debruçada sobre os bancos falando com os desconhecidos ao invés de ficar no fundão com os outros brasileiros (nada contra eles, claro, mas julguei mais enriquecedor passar tempo com pessoas que eu provavelmente nunca mais veria na vida).

 

Rhys e Ana Carolina na festa de despedida do Azerbaijão

Nessas comecei a conhecer pessoas incríveis. Dos EUA havia uma menina chamada Rhys com a qual teve um click de amizade imediato. Muitíssimo inteligente e aberta, ela tinha um espírito de viajante similar ao meu e, além de também ficar desconfiada com a viagem, já havia morado um ano na Rússia e assim tinha muito mais conhecimento da área. Outra menina, Taylor, quebrou meus estereótipos sobre republicanos norte-americanos. Outra, a Sam, me mostrou quão desrespeitosa culturamente uma pessoa pode ser. Entre os croatas, conversei com alguns que eram também muito espertos, desde uma jornalista também chamada Ana que era ligada no 220V, até um físico de cabelo comprido chamado Mattias que checava no GPS se o ônibus fazia caminhos longos demais. Entre os sul-africanos, uma menina chamada Iram era como uma jóia escondida e um cara chamado Luyanda era uma caricatura por si só. Os egípcios estavam em alvoroço por conta da junta militar que havia acabado de tomar poder no país (e entre eles conversei com pessoas de opiniões diametralmente opostas), mas não deixavam de cantar e dançar muito. Não fiquei muito próxima dos marroquinos ou dos lituanos.

Uma grande descoberta que eu não previa foi a relação com todas essas pessoas. Senti na pele o peso de estereótipos e rasas opiniões culturais. De como é fácil conjugar um indivíduo sob uma categoria total e socialmente construída que é a nacionalidade. De que responder vinte vezes “Meu nome é Ana e sou do Brasil” uma hora cansa, mas às vezes é tudo que as pessoas querem ouvir de você. Conversar de verdade, de verdade mesmo, eu sabia que era difícil. Essa viagem foi um teste. Que deu certo, por sinal: já visitei a casa de três pessoas que conheci lá – da Rhys, em Chicago, e da Ana e do Toni, na Croácia.

Você faria tudo de novo sabendo que seria como foi? Recomenda a experiência?

Sim. Não poderia recomendar mais para quem está tentando este ano. Do modo que for, vale a pena. Aprendi muito. Sobre o Azerbaijão em si, sobre como lidar com esse tipo de viagem, sobre estrangeiros, sobre mim mesma. Minha vida não correu riscos e comi bem pra caramba, também é importantíssimo notar.

Depois da viagem, você continua acompanhando a trajetória do país?

Houve “eleições” no Azerbaijão e algo tem sido falado sobre a importância geopolítica na órbita russa. Não aparece muito na mídia brasileira ou na exterior que normalmente acesso, mas certamente vou clicar caso o nome apareça na manchete.

Presente comprado para a mãe e que traz um símbolo curvado típido da cultura local, a "buta"

Presente comprado para a mãe e que traz um símbolo curvado típico da cultura local, a “buta”

Qual seria o balanço da experiência?

Enfim, no geral, conheci vários lugares, mas não tenho o direito de dizer que conheço o Azerbaijão. Tenho várias estórias fascinantes, desde alguns dos outros ganhadores que são pessoas fantásticas ou muito escrotas, até o dia em que resolvi me perder na cidade antiga e acabei jogando futebol com um menino, mas, de novo, não me sinto do mesmo modo que eu me sentiria caso tivesse viajado por conta própria. Ainda assim, é claro, eu viajei porque não foi por conta própria. É o grande dilema de viagens pagas a jornalistas, descobri. Porque não conseguimos (ou eu não consigo) ser apenas uma turista e ir turistando feliz, mas também não consigo ter as liberdades de ir e vir ou de expressão às quais estou acostumada e nas quais ponho muito valor. Ah, e tem a questão diplomática, claro: lá eu era representante do Brasil, a convite do Ministérios de Juventude e Esporte do Azerbaijão. Eu não era apenas Ana. Isso dava um peso maior a o que eu fazia ou a o que eu falaria. Peso com o qual ainda preciso me acostumar caso venha a participar de outras empreitadas como essa.

Se interessou pela viagem? Leia mais acessando o texto de Ana Carolina sobre o assunto e também a redação que ela fez para o concurso.

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Uma viagem pela Ásia, e mais do que ele imaginou fazer em seus sonhos

Jorge viajou pela Ásia durante sete meses, de dezembro de 2012 a julho de 2013

Jorge von Kostrisch atualmente é tradutor, se formou pela USP em relações internacionais em 2010 e é autor do blog Wanderlust Bug, que surgiu da viagem que ele fez pela Ásia. No final de 2012, Jorge decidiu experimentar algo novo e que sempre teve vontade de fazer: dedicar um bom tempo ao leve prazer de viajar. Durante os primeiros meses de sua viagem, ele fez um intercâmbio social e depois traçou um roteiro por diferente países da Ásia. 

Por que fazer mais do que um intercâmbio social? Depois de realizar trabalho voluntário, você esteve em uma infinidade de lugares. Quais os benefícios e diferenças de cada uma dessas experiências?

Desde sempre, fui fascinado com a ideia de viajar sem prazos, restrições de tempo, compromissos a cumprir ou outras obrigações – explorar o mundo em meus próprios termos, no meu próprio ritmo, e aberto às experiências e pessoas que cada lugar me proporcionasse. Deste modo, sempre esteve nos meus planos uma viagem prolongada e que passasse por muitos lugares. Ao mesmo tempo, reconheço que uma estadia maior em um único lugar é capaz de te oferecer uma visão mais profunda e diversa daquele país e daquela cultura, além da oportunidade de criar laços sociais, se inserir no modo de vida daquela população e fazer parte de um lugar. Por fim, também queria que minha viagem tivesse um aspecto social positivo, que eu deixasse algum lugar pelo menos um pouquinho melhor do que o encontrei. Foi para conciliar todos esses desejos que decidi começar com um trabalho voluntário por 3 meses, para depois iniciar um roteiro mais itinerante.

Quando se está parado em algum lugar, e especialmente se você assume algum papel naquela sociedade (como um trabalho voluntário), sua exposição ao real modo de vida local e à cultura dos nativos é muito maior do quando se está de passagem. É ali que o famoso choque cultural de fato acontece, que você é desafiado por coisas tão simples como uma forma diferente de encarar um simples “por favor”, “desculpe” e “obrigado”, por exemplo. Na família com a qual vivi na Índia, estas três expressões eram proibidas  – não se pedia “por favor” porque é obrigação da família atender suas necessidades; não se pedia desculpas, porque jamais alguém machucaria ou ofenderia alguém da família intencionalmente, razão pela qual qualquer ofensa era automaticamente perdoada sem necessidade de desculpas; e não se dizia “obrigado” porque não há favores entre a família, toda ajuda é parte da missão de vida de seus membros. A omissão de três expressões comuns trazia todo um novo entendimento de família e relacionamento, e estas coisas só aparecem com a convivência.

Quem foram seus principais conselheiros na hora de se decidir pelo roteiro da viagem? Você estipulava regras e seguia seus planos? Mudava de ideia de acordo com a experiência no local?

Muita gente me apoiou na ideia de viajar, mas o roteiro da viagem foi uma coisa bem minha mesmo. Eu decidi pela Ásia porque queria algo distante da minha realidade, pela história milenar, pela imensa variedade de lugares e culturas, e pelo preço. Além disso, sempre quis fazer um voluntariado na Índia. Saí do Brasil apenas com o plano de trabalhar em Calcutá, e com uma vaga ideia dos países que eu queria visitar, mas sem a menor ideia de que cidades e lugares visitar neles. Eu ia decidindo os próximos passos ao longo do caminho, e muitas vezes meus planos mudavam. No Nepal, havia planejado ficar uma semana, mas me apaixonei pelo país e acabei ficando um mês inteiro e escalando uma montanha, depois de conhecer e me juntar a um casal de americanos com experiência nisto. Eu procurei ao máximo não assumir compromissos (passagens aéreas, reservas de hotel, etc) que limitassem a flexibilidade do meu roteiro. Depois de um tempo, eu já chegava em cidades desconhecidas no meio da madrugada sem nem uma reserva de pousada, e tudo dava certo. Aprendi que em todos os lugares do mundo, os seres humanos têm as mesmas necessidades que você, e nunca será difícil (e muitas vezes será mais divertido) apenas deixar acontecer.

Uma experiência incrível: paragliding em Pokhara, no Nepal

Nessas condições, como fazer para não perder as contas e gastar mais do que o imaginado?

Este é um ponto delicado. Eu fiz uma estimativa de gastos diários antes da minha viagem e todos os dias anotava tudo o que gastava e comparava com o planejado. Se ultrapassava, segurava um pouco mais nos dias seguintes. É um exercício difícil, porque passei por 14 moedas diferentes, mas o planejamento ajudou. Acho importante, porém, não se prender demais ao orçamento quando oportunidades únicas aparecem  – como fazer o curso de mergulho na Malásia ou voar de paraglide no Nepal. Dinheiro se resolve depois, mas certas coisas só cruzam seu caminho uma vez. Com o passar do tempo, me acostumei a viajar usando apenas um mínimo, e parei de fazer um controle tão rígido – fui controlando apenas quanto dinheiro ainda tinha, e acabou dando certo. É só não exagerar, e a Ásia é incrivelmente barata.

Qual o lugar que mais te marcou nessa viagem, que você disse pra si mesmo que teria que voltar? Qual a história desse lugar?

É uma pergunta difícil, porque os lugares te marcam de maneiras diferentes. Tem o maravilhamento das grandes obras como o Taj Mahal, Angkor Wat, e a Shwedagon Paya (na Índia, Camboja e Myanmar, respectivamente). Há o embevecimento das belezas naturais, como os himalaias, as florestas dos Laos, as ilhas da Tailândia e da Malásia. Há as culturas incríveis como na Índia e na Indonésia. Acho que um lugar que eu preciso voltar é Myanmar. É o país com o conjunto da obra mais absolutamente impressionante, na minha opinião.

Shwedagon Paya, em Yangon

Há a Shwedagon Paya em Yangon e os templos de Bagan. Há uma comida surpreendente e única. E há um povo que é indiscutivelmente o mais simpático, amigável e acolhedor que já vi na vida (o que é dizer muito para os padrões do sudeste asiático – é difícil superar as pessoas do Laos e do Nepal neste quesito). Em cada restaurante em que eu sentava, pessoas me chamavam para suas mesas e me pagavam comida e bebida.  Não podia esperar um ônibus em pé, que pessoas, até senhoras, se levantavam para me oferecer o assento. Um amigo pegou alguns ônibus da capital até uma cidade próxima, e os nativos fizeram companhia para ele até o destino  – a cada vez que um nativo tinha de descer do ônibus ou seguir um caminho diferente, ele “passava” meu amigo para a responsabilidade de outro, de modo que ele sempre esteve guiado e acompanhado até o final. Myanmar também é o país da região, certamente por conta do isolamento político das últimas décadas, onde a cultura local está mais viva em termos de vestuário, costumes e culinária. Certamente voltarei lá.

O Hawa Mahal, Índia: esta estrutura com dezenas de janelinhas foi construída para que as mulheres da corte do Rajput local pudessem olhar para fora do palácio com privacidade e ver a vida na cidade rosa

Que tipos de costumes te surpreenderam durante a viagem? Em algum momento você sentiu necessidade de mudar sua maneira de se comportar para não ir “contra” a cultura local?

Muitas vezes. Minha “mãe” indiana, por exemplo, não admitia que eu lavasse a louça, ajudasse na casa, nem mesmo que eu mesmo me servisse de comida, já que todas estas tarefas são responsabilidades da mulher. É difícil para um ocidental se controlar neste tipo de situação, mas é necessário respeitar os costumes da cultura local. Para as mulheres, isto é particularmente verdadeiro, já que as culturas asiáticas tendem a ser bastante conservadoras, e os códigos de vestimenta e conduta para elas são bem rígidos.

Existe muita variedade de um país asiático para o outro em termos culinários? Alguma comida não te desceu? 

Típica refeição indiana: arroz, dahl e subzhi, tudo bem apimentado e comido com a mão

A Tailândia tem uma culinária absolutamente espetacular, tida como uma das melhores do mundo, muito rica em frutos do mar e sopas deliciosas. Entre as coisas mais estranhas que vi, está o ovo de pato cozido (eles deixam o patinho de desenvolver lá dentro até metade do caminho, depois cozinham e come-se os pedaços do feto com uma colher, com bico e tudo), uma iguaria comum no sudeste asiático continental. Na Tailândia é comum ver espetinhos de besouros, escorpiões e aranhas, geralmente caramelizados e crocantes.

Você enfrentou problemas para se comunicar com as pessoas nativas? Só o inglês é suficiente para fazer uma viagem como essa? 

Nunca passei dificuldade para me fazer entender – o inglês é bem suficiente na Índia, onde muita gente conhece o idioma. E também é fácil se comunicar em inglês com as pessoas que lidam com estrangeiros em qualquer país (atendentes de pousadas, taxistas, operadores de turismo, etc). A maior dificuldade está mesmo em entabular uma conversação com pessoas comuns – passei uma tarde inteira em um mercado popular em Bangkok procurando um presente específica pra minha família indiana, e nenhum dos lojistas falava uma palavra de inglês. No dia a dia, porém, acaba sendo engraçado, como um bêbado no Laos que tentava a todo custo conversar conosco, mas só conhecia duas expressões: “Thank you” e “Darling, I Love You”.

Quais as principais descobertas que você fez sobre si mesmo? Que tipo de coisas nunca tinha imaginado que fosse capaz de provar, sentir ou viver?

Acho que uma viagem é uma maneira de se expor a situações inteiramente novas, e desta maneira se forçar a usar aspectos da sua personalidade, conhecimentos e habilidades que jamais foram desafiados em seu país de origem. Esse exercício acaba por revelar e ressignificar muitos comportamentos, limites e traços que estavam escondidos da sua própria percepção, levando-o a entender melhor a si mesmo, e a compreender fatos passados de sua vida sob uma nova luz. Com reflexão, algumas destas descobertas se tornam lições. Eu aprendi, por exemplo, a  confiar mais na minha capacidade de resolver e me sair bem de qualquer situação inesperada, o que me fez abrir mão da ansiedade de controlar todos os aspectos da minha vida ou planejar cada passo, me abrindo mais à espontaneidade  – e descobrindo nelas novas oportunidades. Aprendi a aceitar mais as coisas e as pessoas como são, e não a tentar enquadrá-las no que eu desejaria que fossem. Cada curva da estrada está cheia de lições para quem mantém os olhos abertos.

Bagan, Myanmar

Entre as coisas inesperadas, acho que jamais tinha sonhado que fosse abraçar um tigre adulto na vida… Porém, acho que você descobre o inusitado em pequenos detalhes no dia a dia da viagem. Em Myanmar, por exemplo, passei uma noite em claro em uma viagem de 15h de ônibus de Yangon a Bagan, chegando no meio da madrugada a uma beira de estrada sem ninguém. Conheci uma médica inglesa que estava no mesmo ônibus, e juntos encontramos um carroceiro que aceitou nos levar até a cidade e à pousada por um preço. Fomos atrás da carroça com as malas, e chegamos antes do amanhecer na pousada, quando um grupo de estrangeiros estava saindo em bicicletas para assistir ao nascer do sol de cima de um dos mais de 3000 templos da planície de Bagan. Nos juntamos a eles, e no caminho fui conversando com essa média, que era hematologista, sobre seu trabalho, ela tratava crianças com leucemia, na Inglaterra. Conversar sobre leucemia com uma médica britânica, enquanto andava de bicicleta de madrugada nos confins de Myanmar, rumo a templo de mais de mil anos depois de andar de carroça? Nem em meus sonhos mais loucos.

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Correspondente das terras do Drácula

Marina Castro, estudante de jornalismo da ECA-USP, conta como está sendo seu intercâmbio na Romênia, onde vai passar ao todo sete semanas trabalhando como voluntária em um jardim de infância. Surpresa com a cultura local e peculiaridades como o excesso de cachorros nas ruas, ela fala das vantagens de se fazer uma viagem como essa e do aprendizado que o convívio com pessoas de outros lugares têm trazido para a sua formação pessoal.

Marina no jardim de infância em Cracovia

Marina no jardim de infância em Craiova

Quais as razões que te levaram a escolher a Romênia?

Os intercâmbios sociais da AIESEC são voltados para países em desenvolvimento, o que se resume, principalmente, à América do Sul, África, ao sudeste da Ásia e leste europeu. O meu plano inicial era ir para a Índia ou para algum país africano, mas meus pais acabaram não deixando. Mesmo assim, eu não desisti da ideia de trabalhar com crianças e os países do leste europeu tinham alguns dos melhores programas nessa área, então me voltei pra eles.

Vim parar na Romênia por dois motivos principais: gostei muito da ideia do meu projeto, que é o International Kindergarten, e gostei muito do comitê da AIESEC aqui. Todo mundo com quem eu falei me fez sentir que eles realmente queriam que eu viesse e isso fez toda a diferença.

Você pesquisou por outras alternativas antes de viajar com a AIESEC? O que te chamou a atenção na oportunidade de fazer um intercâmbio social?

Sei que isso não é muito aconselhável, mas tenho que dizer que não pesquisei quase nada. Tomei a decisão em um impulso mesmo, de repente pensei: sou louca pra fazer intercâmbio, por que não fazer um nessas férias? E foi isso. Tive a ideia conversando com um membro da AIESEC da USP, por isso não pesquisei sobre outros modos de fazer um intercâmbio social também.

Tem várias coisas que eu acho legais nesse tipo de viagem: o preço é bem mais baixo do que o de um intercâmbio “normal”, digamos assim, como passar dois meses estudando inglês na Inglaterra, por exemplo. Além disso, é uma oportunidade ótima de trabalhar com algo que você não faz no seu dia a dia. No meu caso, trabalhar com crianças em um jardim de infância, o que eu nunca tinha feito.

As atividades no jardim de infância

De segunda a sexta, as atividades no jardim de infância começam às 8h30

Além disso, vir pra cá sabendo que eu ia trabalhar me fez sentir que meu intercâmbio tinha um significado maior, não só pra mim, mas pra outras pessoas.

Como foram as boas-vindas do grupo de crianças?

Fui super bem recebida! Tanto pelo comitê da AIESEC de Craiova quanto pelas professoras do jardim de infância e pelas crianças. Encontrei pessoas maravilhosas desde o começo, mesmo na rua. Todas as vezes em que fiquei perdida, encontrei alguém pra me ajudar a chegar ao lugar que eu estava indo! Todo mundo me fez sentir bem-vinda e acolhida, o que é muito bom quando você está fazendo um intercâmbio.

Você trabalha com outros voluntários? De quais países?

As amigas voluntárias: da Eslovênia, Rússia e Hong Kong/Austrália

Voluntárias: do Brasil, da Eslováquia, da Rússia e de Hong Kong/Austrália

Eu moro no apartamento dos donos do jardim de infância, que receberam também outras voluntárias. Todas nós participamos do projeto e, por isso, nos hospedaram de graça. A princípio, eu morava com uma menina da Austrália e de Hong Kong, uma da Eslováquia, uma da Rússia e uma de Uganda. Agora, a australiana foi embora e a ugandense foi para outro projeto, então, estou só com a russa e a eslovaca. Mas já conheci gente da Grécia, da Espanha, da Macedônia e mesmo alguns brasileiros!

Qual a sua rotina na Romênia? Que atividades realiza com as crianças?

Eu e os outros voluntários vamos para o jardim de infância mais ou menos às 8h30, de segunda a sexta. Trabalhamos com cerca de 15 crianças, geralmente ensinando músicas simples em inglês, fazendo jogos para elas memorizarem os números, cores, nomes de animais… Também mostramos a elas um pouco dos nossos países, como as bandeiras, as comidas típicas, o clima. Tentamos fazer atividades que sejam divertidas.

Um dia, por exemplo, fizemos chapéus de princesa e de feiticeiro para todo mundo. Muitas vezes também ajudamos as professoras com as atividades que elas prepararam para as crianças. Ajudamos a recortar, a colorir, esse tipo de coisa.

De que maneira a diversidade de pessoas e costumes tem contribuído para o seu aprendizado?

Acho muito interessante saber um pouco mais da cultura de outros países, do que eles fazem de diferente em relação ao Brasil e, especialmente, acho que é bom para ser mais tolerante. Algo que considerado estranho por nós, brasileiros, pode ser comum na em outros lugares. No Brasil, por exemplo, a gente geralmente não tira os sapatos na casa dos outros, tipo, não é considerado muito “elegante” fazer isso. Mas aqui, na Romênia, é justamente o contrário. O seu sapato pode estar sujo e o “deselegante” é não tirar quando você entra na casa de outra pessoa. É bom ter que conviver com esse tipo de diferença para aprender a respeitar as pessoas e entendê-las melhor. Pessoalmente, tem sido um ganho cultural muito grande.

Marina e os amigos estrangeiros

Marina diz que o convívio com outros estrangeiros foi fundamental para se desinibir ao falar inglês

Durante a viagem, sentiu melhoras no inglês? É possível desenvolver bastante a conversação?

Senti melhoras, sim. Com os outros voluntários, aprendi palavras que não sabia e me “soltei” mais na hora de falar. Quando estamos falando uma língua estrangeira, é normal nos sentirmos um pouco acanhados, com medo de pronunciar palavras errado, e esse tipo de coisa. Mas depender do inglês todo dia é bom porque você perde a vergonha. Não importa tanto se está falando tudo certinho, mas se você consegue se fazer entender. Acho que já melhorei bastante meu vocabulário e meu modo de me expressar.

Chegou a aprender palavras em romeno? Quais são as principais dificuldades na hora de se comunicar com as crianças?

Aprendi algumas coisas, sim, mas coisas básicas. Sei falar “oi”, “tchau”, perguntar se está tudo bem, essas coisas. Aprendi os números e as cores também, as crianças me ensinaram! A principal dificuldade na hora de falar com elas é o idioma, com certeza. Elas não falam inglês e nós não falamos romeno, então tem muita mímica envolvida. Mas todos os dias alguém da AIESEC vai com a gente para o jardim de infância para servir de tradutor já ajuda bastante.

De todo modo, é um desafio conversar com alguém que não fala sua língua… É no mínimo interessante hahaha Ah, outra coisa: a maioria das pessoas não sabe, mas romeno é uma língua latina e tem muitas palavras similares ao português. Algumas são iguais mesmo, o que facilita na hora de tentar conversar. Se você falar italiano, melhor ainda, as semelhanças são maiores.

Como é a cidade em que você está? 

A cidade em que estou se chama Craiova, é pequena comparada com São Paulo, tem 300 mil habitantes. Isso foi meio que um choque logo que cheguei haha Não é uma cidade turística, como as cidades da Transilvânia, então, não tem muita coisa pra ver, mas eu gosto bastante daqui. É uma cidade tranquila, limpa, mas com inúmeros cachorros na rua. É impossível andar por Craiova sem topar com pelo menos um cachorro de rua. Mas eles não são agressivos nem nada, ainda bem.

O mais chama a atenção na cultura local?

Uma coisa que me chamou muito a atenção foi a quantidade de pão que as pessoas comem aqui! É sério, em todas as refeições eles comem pão, no café da manhã, no almoço, no jantar, no lanche… Parece bobo, mas fiquei surpresa!

Outra coisa que me surpreendeu foi o quanto as pessoas estão dispostas a te ajudar, mesmo não falando inglês. Não que eu estivesse esperando que todo mundo fosse ser mal-educado, mas desde que cheguei na Romênia encontrei pessoas muito calorosas, dispostas a me ajudar quando precisei de informações, simpáticas… Acho que posso dizer que os romenos são bem amigáveis!

Quais suas comidas e bebidas preferidas?

Gosto bastante de covrigi. São biscoitos que parecem pretzel, geralmente salgados, e muito gostosos! Gosto de mămăligă também, que se parece à polenta. Bebidas preferidas eu não tenho, porque a maioria tem álcool e eu não bebo! hahaha

No Castelo do Drácula

No Castelo do Drácula, onde estão guardadas peças históricas do mobiliário da última rainha romena

Você teve a oportunidade de viajar para outros lugares?

Passei uma semana viajando pela Transilvânia e conheci o castelo do Drácula hahaha É uma região muito legal, achei as cidades muito interessantes, especialmente Brasov, que fica bem perto do castelo de Bran (o do Drácula). Eu e as meninas que moram comigo também estamos planejando ir para Budapeste em um fim de semana, mas ainda não temos certeza se vai dar certo.

Que lições você vai levar dessa viagem?

Acho que são lições relacionadas a tolerância e adaptação. Viver num país bem diferente do meu, com pessoas que têm hábitos e criações diversas está sendo um desafio, mas também me ajuda a expandir meus horizontes, a ter a mente mais aberta, a julgar menos. Também tive que lidar com situações inesperadas e me virar, porque nem sempre um intercâmbio é como você imagina que vai ser, né? Então acho que é isso, esse intercâmbio está sendo bom para me conhecer e me desenvolver melhor.

Você teve alguma dificuldade de adaptação ?

Sinto saudade da minha família sim, mas não acho que isso tenha me prejudicado ou dificultado a minha adaptação aqui na Romênia. Talvez o fato de já morar longe dos meus pais há dois anos ajude, não sei. Mas me senti tão acolhida que não tive choque cultural nem nada do tipo. Minha adaptação foi bem tranquila. O maior problema foi mesmo o frio haha agora já está esquentando um pouco, mas acho que nunca cheguei a me acostumar com a temperatura negativa. Fora isso, tudo correu sem preocupações.

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Tudo que você nunca checou sobre a Austrália

Isabela de Freitas Corrêa escolheu a Austrália para fazer seu intercâmbio. A aluna de biologia da ESALQ-USP foi estudar na Australian National University, em Camberra (cidade planejada para ser a capital do país e que pôs fim à rivalidade entre Sidney e Melbourne pelo posto).

Desde julho do ano passado, Isabela vive em um residencial na universidade e conta como foi sua adaptação ao sotaque australiano, qual a sensação de ver de perto animais exóticos e como é comemorar o Natal duas vezes por ano. Se você também tem vontade de viajar para a terra dos cangurus, não perca a chance de ler os conselhos dela.

Isabela chegou na Austrália em julho de 2013 para ficar um ano no país

Por que você se decidiu pela Austrália?

Olha… Tem várias razões. Primeiro, porque um amigo meu morou aqui durante um ano e meio e gostou bastante do país, o que me deixou curiosa para conhecer também. Segundo, pelo fato de a Austrália ser um país exótico, realmente muito diferente de qualquer outro. Depois, que como futura bióloga seria muito interessante pra mim conhecer animais tão diferentes. E por último, pelo clima. Quando me decidi pela Austrália a similaridade com o clima do Brasil foi algo que pesou bastante.

Como foi seu contato com a língua nos primeiros meses? Você tinha estudado o idioma antes?

Pra ser sincera, meu primeiro contato foi terrível (haha), as pessoas daqui falam beeem rápido, e tem uma mistura estranha de sotaques. Então, principalmente no primeiro mês foi super difícil. Eu até que conseguia me expressar, mas não da forma exata como esperava. O que me salvou foi que quando os locais percebem que você não é do país eles mudam a forma de falar (tanto o vocabulário como a velocidade da fala). Então, tive uma ajudinha deles no começo. Só que não foi fácil não!

Tive aulas de inglês durante ensino fundamental e médio (como quase todo mundo tem no Brasil). Depois, quando entrei na universidade, fiz um curso de dois anos, mas não era tão especializado como os cursos de inglês das escolas de línguas.

Quais as principais características do sotaque australiano? Você considerou esse ponto no momento de escolher a Austrália para fazer o seu intercâmbio?

Como eu falei antes, o sotaque daqui é uma mistura bem estranha: inglês britânico falado de uma forma country. Não são todas as pessoas que falam dessa forma, principalmente, porque tem bastante estudante internacional no país. Mas, com certeza, todo mundo tem sotaque britânico.

Eu nem pensei no quão difícil o inglês daqui poderia ser na realidade. Acho que fui tão na ânsia de fazer o intercambio que estava topando qualquer coisa. Mas eu recomendo que as pessoas considerem isso antes de vir, pra não quebrarem a cara tão feio como eu quebrei na chegada (haha).

Time de futebol feminino do Bruce Hall

Time de futebol feminino do Bruce Hall

Fez amigos nativos? Se sentiu acolhida pelos australianos?

Os brasileiros que vem pra Camberra tem uma experiência bem diferente em relação ao contato com os nativos. Como a cidade é uma capital planejada, assim como Brasília, não tem muitos lugares livres e acessíveis pra montar as tais ‘shared houses’. Normalmente, a opção recomendada pra quem vem pra cá é morar dentro do Campus, em moradias estudantis chamadas de Colleges ou Halls.

Eu moro no Bruce Hall, um lugar com mais ou menos 300 pessoas. Dessas 300, tinham apenas eu e mais quatro brasileiros. Então, teoricamente, a gente convive o tempo todo com nativos. Faço as principais refeições, pratico esportes e vou pra festas, quase sempre com o pessoal do Hall.

E é impressionante como essas 300 pessoas tem a mesma impressao dos intercambistas, principalmente, de brasileiro: eles adoram a gente! Querem saber tudo de você, do seu país, do que está acontecendo no seu país… não imaginava que seria tão bem acolhida pelas pessoas.

A maioria dos estrangeiros são asiáticos, mas tem bastante gente de outros estados australianos, da Tasmânia, e alguns da Europa. Tenho amigos que vieram da América Latina também, e um ou outro vem da América do Norte. A mistura é bem grande!

Alimentando cangurus no zoológico

Alimentando cangurus no zoológico

Quais passeios você mais gostou de fazer até agora?

Gostei bastante do Nacional Zoo & Aquarium Camberra e acho que essa foi a minha primeira visita aqui na Austrália. Um passeio bem diferente do que eu esperava! Com certeza, é uma grande oportunidade de chegar bem pertinho dos cangurus. Mas por incrível que pareca, pelo menos aqui na minha cidade, você encontra cangurus no quintal da sua casa (haha).

O zoológico é beeem estruturado, o que me surpreendeu bastante, dá pra ver que os animais que estão em cativeiro são bem tratados. Tem bastante fauna nativa da Oceania no zoológico, muitos coalas, demônios da Tasmânia, cangurus, wallabies… é um passeio muito bom pra quem tem interesse por bichinhos! (:

Aberto de tênis na Austrália

Aberto de tênis da Austrália

Agora, se fosse pra escolher uma viagem preferida, acho que seria a que fiz para Melbourne, quando fui assistir alguns jogos do Aberto da Austrália! A verdade é que o que acaba marcando bastante não são nem tanto os lugares, mas as pessoas que estão com você. Não encontro as palavras certas para descrever bem tudo que senti lá. O que ficou da viagem foi saudade mesmo! (haha).

Qual o esporte nacional? Chegou a acompanhar alguma partida?

Eu diria que tem dois esportes bem grandes: uma espécie de rugby (eles odeiam quando a gente fala isso por sinal! haha) e o críquete (que se parece com o basebal). Ainda não fui em nenhum jogo em estádio, mas pretendo ir esse ano. Acompanhava mais pela televisão quando as pessoas do Hall assistiam as partidas.

Qual aspecto cultural mais te chamou a atenção?

Acho que o que me chamou mais a atenção foi a consciência das pessoas sobre o seu papel em sociedade. Eles são sempre muito educados. As pessoas seguem as leis sem precisar de ninguém fiscalizar suas ações o tempo todo. Locais públicos são mesmo públicos e você não pode fazer o que bem entende, como consumir álcool na rua ou na praia, por exemplo.

Natal em julho

Natal em julho

Participou de algum evento específico que acontece aí?

Sobre as festividades, a coisa mais engraçada é que aqui onde eu moro (não sei se em toda a Austrália) no meio do ano eles celebram o Natal de novo, é o Christmas in July. Como faz muito frio em julho, eles comemoram o Natal para parecer com a festa do hemisferio norte. É igualzinho ao Natal, com ceia, comidas típicas e músicas natalinas, exatamente como em dezembro.

Quais os principais itens da culinária australiana?

A culinária aqui tem muito mais cara de asiática do que de australiana. São vários os restaurante asiáticos e os australianos usam muitos dos temperos deles. Se eu tivesse que nomear algo australiano (que os australianos comem), eu citaria o vegemite, uma espécie de pasta de ervas que eles comem com pão no café da manha. Eu mesma ainda não tive coragem de experimentar (haha).

Australian National University

O ensino na Australian National University é muito diferente do que temos no Brasil?

Não sei se tenho como comparar a qualidade do ensino, porque o sistema aqui na minha universidade é muito diferente do brasileiro. As nossas aulas são divididas em lectures (aulas teóricas) e tutorials (aulas práticas). Todas as lectures têm o áudio gravado pra você ouvir na sua casa se quiser, então, a presença nessas aulas não é obrigatória. Os tutorials são como as aulas no Brasil, você tem que ter uma porcentagem mínima de presença para não bombar nas matérias.

O que você recomendaria a um estudante brasileiro que tem vontade de viajar para o país? Como se preparar? O que levar na mala? E o que fazer para treinar o inglês?

Primeira coisa: paciência, porque o processo não é facil. Segunda coisa, ter muita atenção aos detalhes durante o processo, porque pequenas coisas podem atrapalhar muito e impedir que você viaje. Acho que a coisa mais chata é a burocracia entre a universidade e a embaixada, por causa do vistos e afins, mas depois que isso passa é tranquilo.

Diria também, para quem estiver vindo ou quiser vir, para trazer o mínimo de coisas possível! Você acaba comprando muita coisa aqui e na hora de ir embora ou vai ter que deixar as coisas pra trás ou pagar por bagagem extra. Para as meninas que tomam pílula, eu recomendaria trazer! Eu trouxe e foi uma preocupação a menos pra mim. Outra coisa é que aqui a roupa é muito barata, principalmente as de frio (nos lugares em que faz frio), além de serem mais adequadas ao inverno daqui.

Para treinar o inglês, o que eu fiz foi: assistir programas, filmes sem legendas e ouvir áudios em inglês pra tentar entender (ou com legendas em inglês se for muito difícil). Também fiz muitos simulados na internet antes de prestar meu teste de proficiência, o TOEFL. Isso ajuda muito na hora da prova.

Bruce Hall

Bruce Hall

Por fim, acho que se você tiver vindo pra cá com a ideia de estudar, não pode esquecer que está vindo para estudar e que não vai ter um ano de férias! (haha). É bem complicado não se sentir de férias em outro país. Tudo é novo, você vai querer viajar, ir pra festas e conhecer pessoas. No fim a ficha cai e você vê que, na realidade, está construindo uma vida em outro lugar, nem que seja por um ano. Eu me senti muito bem depois que percebi: “pronto, estou instalada”. Com isso, pude determinar minhas metas. Foi uma grande satisfação!

Hoje, fazer um intercâmbio é um sonho possível, e a Austrália definitivamente superou todas as minhas expectativas! Recomendo o país a todos que quiserem estudar fora e tenho certeza de que serão muito bem recebidos e terão uma estadia maravilhosa, assim como está sendo a minha! (:

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Inverno gelado, renas, trenós e um exemplo para a educação mundial

Priscila Saba é estudante de relações internacionais da Universidade de São Paulo e decidiu ir para a Finlândia, apesar do frio, para viver uma aventura nada convencional. Ela foi estudar na Universidade de Helsinki e voltou carregando saudades da carne de rena, de acampar com seus amigos na floresta e de conviver com uma cultura bem diferente da nossa.

Priscila esteve na Finlândia durante o primeiro semestre de 2011

Por que você escolheu a Finlândia para fazer o seu intercâmbio? A sua escolha profissional interferiu nessa decisão?

Escolhi a Finlândia por ser diferente. Não queria ir a algum lugar que fosse muito lugar-comum ou parecido com São Paulo. Depois desse critério, outros influenciaram minha decisão. O fato de ser um dos melhores ensinos do mundo e de eu, por fazer relações internacionais, me interessar pelo conceito de democracia nórdica.

O que mais te chamava a atenção no país antes mesmo da viagem?

Acho que o que mais chama a atenção na Finlândia é o frio! Fui tão preparada para o pior, que acabei não sofrendo tanto com ele enquanto estava lá. Além disso, também me chamava a atenção a organização social, a qualidade de vida no país. E tudo isso me surpreendeu positivamente, pois por mais que a gente ouça falar sobre a falta de violência, como tudo funciona, vivenciar isso é bem diferente.

Como foi a sua adaptação em relação ao clima?

Foi bem tranquila. Como dizem os finlandeses, não há clima inapropriado, há roupa inapropriada. O mais difícil, acredito, não é o frio em si, apesar de não ser o comum para nós, e sim a falta de luz solar. No alto inverno chega a ter menos de 4 horas de luz por dia. Isso deixa o dia mais triste, é preciso arrumar maneiras de passar o tempo. Em compensação, quando chega o verão, as pessoas não se cansam de sair e a luz solar, que se prolonga até tarde, colabora para todos saírem e ficarem animados.

No sul da Finlândia, a temperatura chega a até -15°C no inverno

Com quem você viveu durante esse período? Como era a cidade?

Eu dividi um apartamento com outra brasileira do mesmo curso que eu. Nós nos demos muito bem, de um modo geral. Helsinki é uma cidade tranquila. É a capital da Finlândia, então onde tudo acontece, mas ao mesmo tempo bem calma se comparada a São Paulo. O transporte é excelente, o frio é tolerável, a qualidade de vida ótima. Diferentemente de São Paulo, mas do mesmo modo que muitos lugares na Europa, o comércio não funciona até tarde e é difícil encontrar comida, seja para entrega, seja para comer no lugar depois de certo horário. A solução para aquela fome no meio da noite era juntar os amigos e dividir um miojo.

Priscila e sua companheira de quarto passeando de trenó

Os finlandeses são receptivos?

Sim, eles são bastante receptivos e demonstram interesse pelos países dos estrangeiros, oferecem ajuda para o que for necessário e procuram integrar os “novatos”.

Você sabia falar alguma coisa em finlandês? Comunicava-se somente em inglês? 

Não sabia falar nada de finlandês antes de ir para lá. Em Helsinki, fiz aulas, mas por ser uma língua completamente diferente, que não tem nem origem indo-europeia, e por a população praticamente inteira falar inglês, aprendi muito pouco. Na cidade, acho que nunca tive problema em me comunicar em inglês, embora no interior, as pessoas mais velhas não soubessem muito bem. No geral, acredito que isso não atrapalhou.

Quais os aspectos culturais que mais te chamaram a atenção? E os aspectos históricos?

Iglus diferenciados

Além disso, os finlandeses bebem muito. Não chega a ser um problema de saúde pública, mas a maior parte da socialização acontece ao redor de bebidas.

Quanto aos aspectos históricos, muita coisa também foi uma surpresa. Primeiro, até 1970, a Finlândia era um país razoavelmente pobre. Outra coisa, foi que ela só se tornou independente em 1917. Até então era posse da Rússia e anteriormente da Suécia. Até hoje, há uma minoria sueca na Finlândia, o que faz o sueco ser uma língua oficial.

Diz a lenda que a esposa Runeberg teria sido a criadora da receita das tortinhas que ficaram conhecidas graças ao poeta

Quais as suas comidas típicas preferidas? E bebidas?

Quanto a bebidas, minha favorita era Fisu, também chamada de Fisk em outros países escandinavos. Era uma bebida feita de ervas e tinha um gosto parecido com Vick Vaporub. Eu achava uma delícia, apesar de muita gente detestar. Eu também gostava muito de Lonkero ou Long Drink, feito de gin e suco de grapefruit.

Quais lugares você mais gostou de visitar no país? O que havia para conhecer?

Minha viagem para a Lapônia provavelmente foi uma das melhores que fiz na vida. Lá, a vida é completamente diferente da nossa, e isso, para mim, é o mais legal de conhecer lugares novos. Além de ter andado de trenó de renas e de huskies, eu aprendi a fazer um iglu de neve, fogueira, e outras técnicas de sobrevivência.

O fenômeno acontece no hemisfério norte, geralmente, entre março e abril ou setembro e outubro

Vi também a aurora boreal e passei bons momentos com meus amigos conversando na floresta. Também gostei muito de visitar uma cidadezinha chamada Porvoo, bem charmosa, com casinhas coloridas e um rio que deixa o ambiente super agradável. É também a cidade natal de Runeberg, e era possível visitar sua casa.

Os preços são muito altos?

Utiliza-se Euro na Finlândia. Os preços são relativamente altos, mas ainda assim mais baixos que o restante da Escandinávia. A diferença com relação a São Paulo acaba não sendo tão exorbitante assim.

Foi necessário viajar de avião para se deslocar da Finlândia para outros lados? O país tem fácil acesso ao restante da Europa?

Por ficar numa península, o acesso por terra da Finlândia para outros países não é o caminho mais fácil. Ainda assim, existem alternativas: balsas para ir até Suécia e Estônia, por exemplo. Também é bem rápido de chegar até São Petersburgo, na Rússia. Eu levei aproximadamente 5h30 para fazer o trajeto. Para outros lugares, entretanto, acredito que o mais fácil seja avião.

Muito se ouve falar do sistema educacional finlandês, o que o Brasil poderia aprender com a Finlândia nesse sentido?

Acredito que a questão educacional finlandesa é muito mais profunda que somente a educação. Numa sociedade mais igualitária, na qual as pessoas possuem verdadeiramente chances de vida parecidas desde o momento em que nascem, pode-se ter um sistema educacional muito mais próximo do ideal. Assim, o sistema é mais aberto, mais voltado para educação de fato e não principalmente para o mercado, na minha opinião.

No ensino superior, essa diferença torna a ideia de “fazer faculdade” algo muito diferente do que é para nós, de uma maneira geral. As pessoas demoram mais para entrar na faculdade, é muito comum tirar um “gap year” ou mesmo dois. Antes de ir para a universidade, no geral, as pessoas viajam por meses, aprendem línguas, moram em outro lugar. Encontrei muitos finlandeses que tinham feito mochilão pela América do Sul e até alguns que lutaram nas missões de paz da ONU.

Do meu ponto de vista, para melhorar o sistema educacional, é preciso melhorar o acesso a ele em todos os níveis, e, para isso, é necessário haver uma sociedade mais igualitária social e economicamente.

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De peito aberto para novas descobertas

Ricardo chegou ao Canadá no segundo semestre de 2012

Ricardo Moreira de Oliveira é estudante de engenharia elétrica na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e esteve no Canadá durante dois semestres letivos na University of Calgary. A viagem abriu seus horizontes para muito além das fronteiras do país. Ricardo aproveitou para ir fundo no aprendizado do inglês, viajar, conviver com um clima rigoroso, descobrir mais sobre o Brasil, conhecer novas pessoas e se apaixonar… não só por uma cultura diferente, mas por sua namorada, Suanny, equatoriana que conheceu no Canadá.

Por que você se decidiu pelo Canadá?

Eu sempre tive como meta ser fluente em inglês e sempre tive a noção de que se eu quisesse realmente aprender, só conseguiria se, de fato, morasse por um tempo em algum outro país que tivesse o idioma como língua mãe. Além disso, eu já tinha estudado francês por um ano no Brasil. Então, a oportunidade de ir ao Canadá era perfeita para que eu pudesse aprender as duas línguas e ainda conhecer um país de primeiro mundo.

Como você avalia seu crescimento no aprendizado do idioma com o passar dos meses?

Estudei por volta de 5 anos em uma escola de idiomas e, como quase todo brasileiro que já estudou inglês, pensava que dominava o idioma. Diria que foi o suficiente para eu fazer tranquilamente o teste de proficiência (TOEFL). Porém, ao chegar lá, percebi o quanto nossa língua portuguesa é cheia de sotaques, como o do R rasgado ao início de uma palavra ou do som fechado das letras T e D (nas palavras “dia”, “amizade” e “esmalte”, por exemplo). São características fonéticas que nunca imaginamos ter, mas que por alguns meses contribuíram para que eu pronunciasse muitas palavras incorretamente, tanto por falta de prática como de convívio com a língua.

Com o tempo fui aprendendo, um tanto quanto a força, a melhor maneira de me comunicar, e hoje me considero fluente em inglês e consigo manter perfeitamente uma comunicação, embora em certos momentos não entenda músicas ou gírias.

Foi fácil se adaptar à nova realidade?

Sim, não tive problemas quanto a isso. Tive sorte e o programa me deu um apoio muito grande para a ida, acomodação, seguro de vida, matrícula na universidade, enfim. Só tive que tirar o visto por conta própria, mas de resto tive uma enorme ajuda do CNPq (órgão responsável pela bolsa). Ao chegar no Canadá, o único problema era o inglês. O frio só chegou depois de alguns meses e era algo inédito, que eu estava esperando muito pra ver, então, não foi bem um problema.

Você morava com brasileiros ou estrangeiros? De que maneira essa escolha interferiu na sua experiência?

Eu morei durante o primeiro semestre com mais dois brasileiros em um apartamento. Não tive escolha, pois o programa me dava um lugar para ficar, e era isso. Foi muito bom inicialmente, pois logo estava adaptado ao país, não me sentia sozinho, nem sentia falta do Brasil, o que acho que poderia ter acontecido no início. Depois, na metade do primeiro semestre, um deles pediu à universidade (nós morávamos na residência da universidade) para mudar de lugar, com o intuito de treinar o inglês. Realmente, passados os primeiros meses de adaptação, a preocupação passa a ser atingir outros objetivos, e um deles era aprender o inglês, imagino que para todos que foram pra lá.

No segundo semestre, morei com um canadense substituto desse brasileiro, porém nós quase não conversávamos, porque ele era um tanto quanto estranho e vivia trancado no quarto. Nos últimos dois meses, quando fui fazer estágio e mudei de residência, dividi apartamento com um canadense, dessa vez muito mais simpático do que o primeiro. Nos tornamos bons amigos até. Morar com estrangeiros é ótimo para “pensar em inglês”. Você passa o dia inteiro com o inglês na cabeça e não há outra alternativa a não ser falar e pensar no idioma.

Como foi a recepção por parte dos canadenses?

A recepção foi ótima, os canadenses são realmente como mostram no 9gag, pessoas extremamente educadas e que fazem você se sentir bem, independentemente do lugar de onde você tenha vindo. Fiz muitos amigos de outros lugares do mundo também. Conheci gente da Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Irã, Emirados Árabes, Austrália, Equador, Venezuela, França, entre tantos outros.

University of Calgary

Recomenda a universidade de lá para estudantes interessados em fazer intercâmbio?

Sim, recomendo. Tive todo o apoio da universidade, eles eram totalmente acessíveis e atenciosos. Não tenho idéia de quanto eram os “tuition fees”, pois esse tipo de pagamento era feito diretamente pelo órgão responsável pela bolsa, mas a estrutura era realmente muito boa, e quanto ao sistema de ensino achei diferente e talvez melhor em comparação à minha universidade. Lá tinha muito mais atividades, laboratórios, exercícios para serem entregues e testes do que na Unicamp.

Além disso, na universidade, a nota não era dada apenas pela sua média ponderada em algumas provas, mas sim por todo o conjunto do semestre. Isso estimula o estudo constante, o que é muito melhor para o aprendizado. A última prova também é relacionada a todo o semestre, independentemente de você ter ido bem ou não na matéria. As aulas são mais curtas, de 50 minutos a 1h20, o que é muito, mas muito melhor do que as 2 horas de aula que tenho na Unicamp.

Apesar de todos esses pontos positivos, percebi que as matérias não são tão aprofundadas quanto no Brasil. Tive facilidade para estudar, coisa que não teria aqui, mas acredito que, talvez, todo esse estilo de ensino comprometa a qualidade e profundidade do que é ensinado.

O que mais te chamou a atenção a respeito da cultura local?

Tudo é muito diferente. As pessoas são extremamente educadas, sempre dão “bom dia” e sempre tratam os outros com um respeito ímpar. Se você tropeça em alguém no trem, a pessoa vira e te pede desculpas. Além desse respeito com o próximo, existe muito o respeito com a sociedade. Cito os trens como exemplo, as plataformas ficam no meio das ruas. Há apenas uma máquina para a compra do bilhete , mas não há nenhum tipo de catraca. Ou seja, a pessoa pode facilmente entrar no trem sem pagar, mas não é o que acontece, eles sempre pagam (aleatoriamente, um policial pode vir a pedir seu bilhete em uma plataforma, e se você não tiver, a multa é beeem salgada). De qualquer forma, isso é algo que eu não vejo que pode dar certo no Brasil.

Tem outras coisas bem interessantes também: como as comidas (bem ruins) do dia a dia deles, o quanto eles amam hockey, como o futebol é tido como um esporte feminino, o fato de que a grande maioria das pessoas freqüentam a academia visando apenas a saúde e o detalhe de que os canadenses ficam muito bêbados e transtornados quando bebem (afinal, a maioria não está acostumada, a bebida é muito cara – devido às taxas impostas a esse tipo de produto – e é proibido beber ao ar livre). Outra coisa que me chamou a atenção é que nas festas é muito comum ver uma mulher realmente rebolando em um homem ou em um pole dance, sendo que eles não se beijam e tudo não passa da dança.

Viajando de carro

Viajando de carro

Você teve a oportunidade de viajar para outras partes do país? Era mais barato alugar carro ou ir de avião?

Viajei para as duas costas canadenses, conhecendo diversas cidades, como Vancouver, Toronto, Quebec, Montreal, Edmonton, Banff, Jasper, entre outras, além de também ter viajado para os EUA, conhecendo Seattle, Santa Barbara, São Francisco, Portland, São Diego e outros lugares mais. Nós alugávamos carros, na maioria das vezes, porque saia mais barato e é bem prático, uma vez que a gente tem que se locomover dentro da cidade e assim não perde tempo. Sempre aranjávamos um grupo de amigos, lotávamos o carro e íamos.

Passou por alguma situação inusitada?

Talvez a única coisa inusitada pra mim tenha sido a viagem a Quebec, porque lá eles ainda mantém um espírito separatista em relação aos ingleses e, portanto, não é muito comum encontrar quem fale inglês. Por conta disso, muitas vezes a comunicação foi extremamente complicada, sendo feita até por gestos (apesar de eu ter estudo francês, não sabia falar realmente).

Parque Nacional Banff

Fora isso, as viagens foram muito tranquilas. Ficávamos em hostels, uma opção barata e que, na minha opinião, tem uma atmosfera diferente, de pessoas que estão abertas a se conhecerem e conhecerem as histórias dos outros. Gostei de todas as viagens que fiz, porém, ter atravessado toda a Califórnia de carro, com meus amigos, foi uma experiência muito marcante. Também gostei muito do parque nacional de Banff, afinal, não é à toa que esse destino é conhecido como um dos lugares mais bonitos do mundo, com aquelas montanhas cinematográficas e aqueles lagos incríveis, onde pudemos ver coiotes e caribus (alguns ainda viram ursos). Quebec também é sensacional e Vancouver talvez seja a cidade mais bonita que eu já conheci. 

Quanto aos preços, você considera o custo de vida no Canadá caro?

É mais caro do que o Brasil, sem dúvida. Mas eu acho que não consegui ter uma idéia exata, pois morava dentro do campus da universidade, sem pagar nada. Em relação ao transporte, usufruia do bilhete semestral para trens e ônibus, pago pelo CNPq. As passagens custam 3 dólares, o que parece ser caro, mas o transporte público está décadas à nossa frente: sempre funciona, sempre chega no horário, é difícil estar cheio (pelo menos em Calgary) e todos se respeitam. Já a comida é cara sim, principalmente, se você decidir ser saudável e comer verduras e legumes, pois é tudo muito caro, provavelmente, devido ao clima canadense. Refrigerantes e hambúrgueres são muito baratos e estão por toda a parte.

Inverno gelado

Em relação ao clima, como foi sua adaptação? 

Dos 11 meses que fiquei, devo ter pego uns 6 meses de neve geral. É muito legal no início, mas depois se torna um pouco depressivo, só que você acostuma de novo. Cheguei a pegar -28°C. Até os -10°C é bem tranqüilo, de verdade. É só colocar uma daquelas jaquetas boas para o inverno, que se compra por lá, e já está tudo certo. É impossível não usar luvas, toucas e coisas para proteger o pescoço. Camisas térmicas são muito úteis também, bem como botas impermeáveis.

Chega a ser depressivo porque por muito tempo você não vê mais o sol. Os dias amanhecem cinzentos e com neve, e não há nada que você possa fazer. No começo é tudo divertido: bonecos de neve, primeira neve na vida e tudo mais. Depois, é comum mesmo passar por essa depressãozinha, o sol não aparece por meses e as noites chegam às quatro da tarde, o que é bem complicado. Eu, que sempre gostei muito de sol e de praticar esportes ao ar livre, me vi num beco sem saída. Depois me acostumei e aprendi a conviver com o frio, passei a praticar snowboard. Foi tudo bem interessante. Frios mais intensos fazem o rosto doer e o nariz parece que está congelando, é incrível.

O namoro

Como você conheceu a Suanny?

Foi muita coincidência. A Suanny teve problemas com perda de mala quando estava indo para o Canadá. No mesmo aeroporto e voo, uma brasileira do programa de intercâmbio em que eu estava teve o mesmo problema. Elas se conheceram por causa disso e como não conheciam ninguém em Calgary, começaram uma amizade. A brasileira logo conheceu todos os brasileiros, inclusive eu. Então, foi questão de tempo até ser apresentado à Suanny, que via em nós um pouquinho do espírito da América do Sul, ela se sentia muito à vontade entre a gente. Os brasileiros foram os grandes amigos dela por lá.

Onde tudo começou

As diferenças culturais foram um problema em algum aspecto?

Não necessariamente. Brasil e Equador são bem próximos. A América do Sul como um todo tem uma população bem calorosa. É claro que temos nossas diferenças: como as diferentes comidas, diferentes músicas, mas nada que interfira na relação. Pelo contrário, sentimos muito mais vontade de conhecer essas novas culturas. Nós dois pensamos igual quando nos referimos ao diferente, ao novo: gostamos de conhecer novas culturas, coisas diferentes e isso é perfeito pra nossa relação.

Como tem sido manter um relacionamento à distância?

Um namoro à distancia é complicado, mas tem algumas vantagens, e eu sempre prefiro ver as coisas pelo lado bom. Primeiramente, duas pessoas só decidem manter um relacionamento à distancia porque realmente se gostam. Se um de nós estivesse em dúvida sobre o que queria, não teríamos aceito de forma alguma essa relação. Então, essa é uma prova do que sentimos. É uma prova da confiança mútua também. Quantas relações não terminariam se tivessem que passar por isso? Pois é, a minha se manteve. Além disso, quando a encontrei novamente no Equador, depois de alguns meses, nosso reencontro foi de uma felicidade tão intensa que eu jamais tinha sentido, e não acredito que namorados que estejam juntos o tempo todo possam sentir isso alguma vez. É indescritível. Nós nos falamos todos os dias pelo Facetime, pelo Couple, Whatsapp, Facebook. A tecnologia nos ajuda muito, sem ela não estaríamos namorando hahaha.

Quais os planos para o futuro: Brasil ou Equador?

Canadá ou Europa! Nossa ideia é terminar a faculdade e iniciar aplicação para mestrado em uma universidade do exterior. Eu prefiro o Canadá, porque nós dois já moramos no país, sabemos como são as coisas. A segurança também é um fator determinante. A Suanny prefere Londres, pois é um grande sonho dela viver lá. Nem eu nem ela nos vemos morando no Equador no futuro. No Brasil, eu até viveria, mas ela ainda não conhece, então não pode dar um parecer. Ela chegou sexta-feira passada ao Brasil,estávamos muito ansiosos.

Visita ao Equador antes da volta pra casa, em julho de 2013

Você imaginava ter uma experiência como essa no exterior?

Foi tudo muito incrível. É a melhor experiência de vida que eu tive, e não entendo porque existam pessoas que não queiram passar por isso. É uma fase de descoberta, em que você se torna uma pessoa diferente, vê o mundo com outros olhos, aprende mais sobre a posição do Brasil no cenário mundial, passa a dar maior valor à sua família, muitas vezes, ao seu país (ao clima e à comida hahaha), passa a pensar no porquê das coisas funcionarem fora e não funcionarem aqui. Se torna mais independente, aprende línguas novas, faz amizades e conhece pessoas incríveis que jamais conheceria se ficasse apenas no seu “mundo”.

Enfim, quem tiver a oportunidade, eu garanto que não se arrependerão. Conheço pessoas que foram e voltaram antes da hora. Não foi tempo perdido. Tenho certeza que serviu pra elas darem maior valor às coisas que as fizeram retornar: seja a falta dos costumes brasileiros, da comida, da família. Um intercâmbio abre a sua mente, é uma experiência nova. É a melhor coisa que existe.

Chegada de Suanny a São Paulo

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O que se sabe dos canadenses e do Canadá

“O que eu mais gosto de Ottawa é poder andar de bicicleta, eu vou pelo canal e aí é aquela vista… Dá uma paz!”

Isabella Asato estuda farmácia na Universidade de São Paulo e está vivendo sua segunda experiência internacional, sendo que nas duas oportunidades escolheu o Canadá como destino. Sua primeira viagem foi em 2009, quando ela ainda estava no ensino médio e passou três meses em Vancouver estudando inglês. Agora, na faculdade, ela decidiu voltar à terra conhecida pelas “maple trees” participando do programa Ciência Sem Fronteiras.

Há três meses, Isabella chegou a Ottawa, capital do país, e conta como foi sua experiência com uma família nada canadense, porque prefere morar com brasileiros, a que horas você vai ter que voltar pra casa depois da balada, quais as vantagens e desvantagens da University of Ottawa (pelo menos na área de biológicas) e o que você pode não saber sobre o Ciência Sem Fronteiras, ou pior, sobre a criatividade dos canadenses no Halloween.

Quais as principais diferenças entre as duas viagens que você fez para o Canadá?

Foram bem diferentes, porque em Vancouver eu morava com uma família, então, não tinha tantas responsabilidades. Não tinha que cozinhar, lavar passar, não tinha que me preocupar com nada e eu era mais nova, acho que não entendia direito as coisas que estavam acontecendo e como você muda. Agora não, eu moro com mais quatro pessoas aqui e nós temos que fazer tudo sozinhos, você cria uma independência muito maior. Eu também sinto que tenho mais maturidade, por isso, é tão diferente.

A família com quem vivi a primeira vez era de Macau, que é uma ilha de colonização portuguesa, mas eles eram chineses. Faziam umas comidas totalmente estranhas e que eu nem sabia como eram preparadas, mas aí a gente comia, porque era o que tinha pra comer. Eu morava com mais uma estrangeira na parte de baixo da casa. Já em questão de higiene era ainda mais complicado, porque o problema era evidente para nós, sendo que pra eles parecia tudo normal (e era, são questões culturais). Mas nós dávamos um jeito, limpávamos nossa parte da casa; só que onde eles moravam ficava tudo sujo. Nunca aconteceu nada mais grave, eu não fiquei doente, mas deve ter aumentado a minha imunidade (risos).

Vancouver, 2009

Além disso, minha rotina agora é mais tranquila, porque quando estive em Vancouver eu tinha aula todo dia das 8 às 16 horas e em Ottawa, como eu faço só quatro matérias, consegui distribuir bem o meu tempo. A diferença também é que lá eu fazia só inglês e aqui estou fazendo matérias da graduação.

E as principais diferenças entre as duas cidades?

Vancouver é um lugar agitado, apesar de não ser maior do que aqui, tem mais cara de cidade grande, deve ser a maior cidade do lado oeste do Canadá. E Ottawa é a capital do país, mas falam que é a cidade mais entediante do Canadá também, eu não acho. Gosto mais daqui do que de Vancouver, porque a cidade é grande (para os padrões canadenses, porque não tem muita gente aqui, o Canadá não tem pessoas!!), mas tem cara de interior. Eu prefiro assim porque gosto de cidades mais tranquilas e aqui você tem bastante contato com a natureza, o Canadá em geral é assim. Só que em Ottawa você está no centro e daí vira a esquina e está no canal, que é lindo e do outro lado tem o parlamento. A vida acontece junto da natureza, mesmo você estando na cidade.

Você mora com brasileiros? Isso interfere muito no aprendizado do idioma?

Atrapalha um pouco porque a gente acaba não falando inglês. De vez em quando, tentamos até fazer uns tratos: “ah vamos falar só em inglês” e dá certo, só que, claro, de modo geral isso atrapalha pra desenvolver. Mas como temos aulas em inglês e estamos em contato com a língua o tempo inteiro, apesar de a gente não praticar tanto, eu ainda prefiro morar com brasileiros. É bom porque a gente não tem nenhum choque cultural dentro de casa. Alguns amigos que moram com pessoas de outras nacionalidades têm problemas, principalmente quando o assunto é higiene, mas são costumes diferentes, né? Não dá pra mudar a pessoa, porque é uma questão cultural. Assim a gente evita alguns atritos, apesar do lado negativo de não praticar tanto a língua. E tem mais cara de casa também quando as pessoas são do mesmo país, temos os mesmos hábitos…

Você está aproveitando a oportunidade para estudar francês também?

O francês eu comecei no Brasil, quando soube que eu vinha pra cá, porque Ottawa é uma cidade bilíngue. Na universidade tem cursos em inglês e em francês e está tudo escrito em duas línguas. Depois de chegar, resolvi fazer uma matéria em francês e continuo estudando, agora, na Aliança Francesa. Estou adorando, é uma excelente oportunidade e é possível praticar! Tenho aprendido bastante vocabulário, é comum ver as pessoas falando francês nas ruas. Dependendo do lugar, você chega falando em uma ou outra língua e eles te atendem normalmente.

Os canadenses são receptivos?

Eles são muito gentis, mas não são calorosos como a gente. Sempre estão dispostos a ajudar e são bem solícitos. Muito educados também, pra tudo é “por favor”, “desculpe”, “obrigado”. Já aconteceu de eu estar passando e ir entrar em um prédio e aí a pessoa segurar a porta até eu chegar. É inclusive um pouco esquisito, a pessoa ficou lá parada (risos), mas é a gentileza e isso faz a maior diferença, mesmo sendo coisas pequenas no dia a dia.

Outros traços culturais te chamaram a atenção?

Eu me considero tranquila, mas às vezes estou com os meus amigos brasileiros no ônibus e a gente percebe que ninguém além de nós está falando alto, dando risada, eles são mais contidos, na deles assim… Nada de chegar dando beijo e abraço, e às vezes a gente faz isso sem querer e as pessoas ficam olhando espantadas.

Aqui você anda na rua e ninguém mexe com você, nunca. Ninguém fica olhando, encarando, falando nada. Outro dia estava com os meus amigos e andamos por uns 40 minutos vindo do centro às duas horas manhã. Não acontece nada, não tem uma alma na rua também, mas é algo que você faz sem medo. Mesmo quando está escuro eu ando sozinha sem problemas. Não é como no Brasil que você tem medo de andar sozinha até durante o dia, aqui você tem mais liberdade pra ir aonde quiser. O conceito deles de “perigo” é muito diferente. Por exemplo, na faculdade tem um serviço que chama Foot Patrol, então, se você estiver se sentindo ameaçado (a) em algum lugar do campus, você vai lá e liga (tem telefones espalhados pela universidade) e aí alguém vai e te acompanha até em casa. Tem também algumas linhas de ônibus, que depois das 19h ou das 21h, param fora das paradas. Você pode pedir para o motorista não parar no ponto e ele para mais perto do lugar onde que você está indo.

O transporte é bom?

É sim, só quando neva que fica mais lento, mas aí não tem jeito, acaba atrasando. A velocidade diminui, tem que limpar a rua por causa da neve. Quando está cheio é aquele cheio: pessoas de pé. Em geral funciona bem, nos pontos tem os horários de cada ônibus e se passa com atraso é um atraso bem pequeno. Além disso, os ônibus tem GPS e você consegue saber se o seu está perto, a que horas vai chegar. Em Ottawa só tem ônibus, não tem metrô. A gente vê que as pessoas ao invés de usarem carro usam transporte público, o que diminui o trânsito e sem trânsito é possível chegar a tempo nos lugares. Além dos ônibus, as pessoas usam bastante bicicleta no outono e na primavera. Eu vou de bicicleta pra faculdade, comprei uma aqui e vou pelo canal, ele é bem logo e tem uma ciclovia em volta.

“Aquela vista no caminho para a faculdade”

Quando eu vou de ônibus são uns 15 minutos até a faculdade. Tenho um passe da universidade que dura o ano inteiro, dois semestres de curso, e a gente pode usar o transporte o quanto quiser. O valor foi pago pelo CNPq, são 360 dólares mais ou menos pelos 8 meses. No verão vamos ficar sem, porque não vamos mais estar com a bolsa. São oito meses de curso e quatro de estágio. Os últimos quatro a gente não tem esse apoio no Ciência Sem Fronteiras.

Você já sabe onde vai estagiar?

Não, eu preciso começar a procurar. Quero um estágio na indústria farmacêutica e os processos começam no início do ano, eles vão selecionando em janeiro e lá pra março você tem uma resposta. Também tem a opção de fazer estágio de pesquisa na faculdade, o que eu acredito que seja mais fácil de conseguir porque eles têm muitas pesquisas e muitos campos de estudo. Caso eu consiga mesmo na indústria, talvez eu mude de cidade, agora, se for na universidade, fico em Ottawa.

Esses estágios são remunerados?

Se eu arrumar o estágio na indústria preciso pedir o cancelamento da bolsa e fico só com o que eu ganhar, mas caso eu faça na faculdade o estágio não é pago, daí eu continuo com a bolsa do CNPq. Se você não arrumar o estágio, é preciso justificar o porquê e,então, eles cancelam a sua bolsa e você volta para o Brasil caso o recurso seja aceito, mas é difícil de você não conseguir. Você pode não querer e tentar indeferir sua bolsa no final, mas é só com a condição de eles aprovarem. As bolsas são pagas pelo CNPq ou pela CAPES.

A cidade é muito cara?

Aqui em Ottawa às vezes a gente acha a comida um pouco cara. Legumes, frutas e verduras são bem mais caros, porque é tudo importado. O resto costuma ser mais barato que no Brasil e eu acho que com Vancouver é parecido. Por exemplo, um pão de fôrma barato pode custar uns $ 2,10, mas chega a até $ 4. Pra economizar, comemos em casa. Na faculdade não tem um restaurante universitário, só fast food, o que é caro. Por isso, se a gente vai ficar lá no período da tarde acaba levando comida. São vários os microondas espalhados pelo campus e tem lugares pra você comer. Dá pra levar comida e esquentar tranquilamente e isso o que a maioria das pessoas faz.

Poutine

Poutine

Você tem algum prato preferido?

A cozinha canadense não é muito marcante, mas eu gosto de um negócio que é muito típico, o poutine. São batatas fritas com um molho e queijo. Tem também um outro que é o beavertails que parece uma rabanada, é frito.

De que maneira o intercâmbio está contribuindo para seu crescimento pessoal e profissional?

Eu estou descobrindo coisas sobre mim que eu não sabia. Sempre me achei organizada, mas nem tanto em questão de arrumar as coisas, só mentalmente mesmo. Mas aqui eu descobri que sou muito mais organizada do que eu achava que eu era. E é assim, você vai descobrindo novas coisas no dia a dia, porque é obrigado a se virar sozinho, não tem ninguém pra cuidar de você. Eu estou aprendendo a cozinha, pra felicidade da minha mãe… (risos).

Em relação à faculdade, eu percebo que os professores gostam muito de dar aula, são sempre muito prestativos e apesar de serem pesquisadores, eles não estão lá só pra fazer pesquisa. Estão dispostos a ensinar, tirar suas dúvidas, deixam os horários que eles estão disponíveis pra você ir na sala deles, respondem e-mail, ficam lá depois da aula. Então, é uma atenção que não é tão comum na USP, pelo menos com os professores que eu já tive.

Agora, falando de um lado positivo da USP, eu acho que as aulas lá são mais fortes. Aqui no Canadá, tem mais coisas pra você fazer: trabalhos, exercícios, apresentações, mas as matérias não são tão aprofundadas e tão difíceis quanto na USP. Você estuda bastante porque tem bastante coisa pra estudar, mas não é super difícil, pelo menos não nas biológicas, que é minha área. No início, eu até larguei uma matéria porque era muito básica, apesar de ser considerada disciplina do terceiro ano aqui (parecia matéria de ensino médio no Brasil).

Como é a organização do campus?

Aqui eu tenho aula de farmácia no prédio de artes, tenho inglês no prédio de engenharia, é tudo meio misturado, então, você não consegue distinguir muito bem os grupinhos e a identidade de cada faculdade. Não é tão separado como acontece no Brasil, aqui os alunos fazem algumas matérias básicas, mas precisam se inscrever em disciplinas de outros cursos para se formar, eles não têm turmas fechadas como na USP, é tudo misturado.

Parlamento canadense, planeje sua visita

Quais são as principais atrações da cidade?

Tem os jogos de hockey, eu fui em um da faculdade, é bem legal. Mas a atração principal da cidade é o parlamento, eles fazem tours, o prédio é lindo. Também tem muitos museus aqui e muitos festivais, mas não peguei nenhum ainda. Existe quem considere Ottawa uma cidade tediosa, mas tem bastante coisa pra fazer sim. Só acho que as coisas fecham muito cedo, até a balada! Fecham duas horas da manhã e em São Paulo a essa hora é que a festa está começando a ficar boa (risos). Pensando positivo, é bom porque você chega cedo, daí ainda dá pra aproveitar o dia seguinte. Para os curisos, a idade mínima pra entrar nas baladas é 19 anos. Eles olham o documento, mas nem revista tem. A última vez que eu fui rolou uma brigazinha, mas até a briga é ordenada, vi umas pessoas sendo colocadas pra fora. Mal deu tempo de a pessoa brigar e ela já estava sendo retirada (risos).

Você chegou a participar do Halloween?

Brasileiros prontos para sair de casa

Sim, foi bem legal, as criancinhas saem pra pedir doce e de manhã você já vê todo mundo fantasiado no meio da rua. Até no ônibus, pra ir no trabalho, na faculdade. Até o pessoal mais velho se fantasia pra ir nas festas, daí a gente resolveu entrar no clima e fomos em uma comemoração também. Tem umas fantasias super elaboradas, tinha uma menina que estava de Barbie dentro de uma caixa e o namorado dela estava de Ken na outra caixa. Eles pensam na fantasia o ano inteiro! Tiveram também uns “zombie walk” correndo pela cidade e organizaram uma corrida beneficente em que se os organizadores te pegassem você virava zumbi também. Eu adoro o Canadá, depois de ter vindo a primeira vez eu queria voltar. Agora eu voltei e sei que assim que for embora mais pra frente vou querer vir de novo!

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“Você corre o risco de se apaixonar”

Pela Espanha, pela experiência dessa estudante, pela ideia de fazer um intercâmbio!

Ingrid Matos Rocha Bezerra Alves decidiu aceitar o desafio de conhecer um novo país e escolheu a Espanha para viver a sua aventura. Ela estuda relações públicas na Universidade de São Paulo e foi para Málaga sem medo de se descobrir e se apaixonar por todas as novas experiências que a viagem tem lhe apresentado.

Ingrid chegou à Espanha no segundo semestre de 2013

Por que você escolheu a Espanha para fazer intercâmbio?

Escolhi a Espanha, porque era um país que sempre tive vontade de conhecer, além de já ter mais facilidade com o idioma, pois fazia aulas de espanhol há três anos antes de vir. Outro fator importante foi a cultura e a paixão por cidades, principalmente, da região de Andalucia como Sevilla e Granada. Além disso, quando finalmente decidi que era o momento certo de fazer intercâmbio, comecei a procurar quais faculdades da Espanha eram boas em comunicação e finalmente fiquei em dúvida entre Madrid e Málaga, mas observei as grades de ambas e me apaixonei pela Universidad de Málaga (UMA), que oferece um curso de Publicidade e Relações Públicas juntos, enquanto a Universidad Carlos III, de Madrid, não tinha o curso de Relações Públicas.

Você está gostando das aulas da universidade? São muitas as diferenças em relação à ECA?

Eu sou simplesmente apaixonada pelas matérias que escolhi nessa universidade, mas o fato é que as universidades espanholas têm um volume muito maior de trabalho e provas do que a ECA, por exemplo. E, além disso, tenho aulas práticas de todas as minhas matérias durante 1h por semana, o que faz com que não tenha nenhum dia de folga, vou para a faculdade tanto de manhã  quanto a tarde, mesmo fazendo “só” quatro matérias este semestre. O ensino também é diferente, não sei dizer se melhor ou pior, mas diferente, eu gosto muito dessa obrigatoriedade de todas as semanas ver meus conteúdos na prática, penso que essa é uma ótima forma de consolidar alguns termos, técnicas e teorias em minhas práticas profissionais, além disso, as aulas teóricas não são “obrigatórias”, mas estão sempre cheias mesmo não tendo lista (acho isso realmente incrível porque infelizmente na ECA eu vejo que muitos alunos só vão por causa da chamada). Outra coisa de que gosto muito é a plataforma virtual deles, que se chama “campus virtual” onde os professores colocam todo o conteúdo das aulas: slides, textos pra ler, trechos de livros, vídeos, fotos e uma série de outros materiais que dão suporte contínuo ao aprendizado. Praticamente todas as entregas de trabalho também são feitas online.

Como você avalia seu crescimento no aprendizado do idioma? Além das aulas da faculdade, o que mais tem te ajudado a evoluir nos estudos do espanhol?

Em relação ao meu aprendizado do idioma, eu realmente acho que evoluí muito, hahaha é como viver o Darwinismo na prática, seleção natural, sabe? rs Se você não se esforçar ao máximo pra se sentir a vontade com o idioma, os espanhóis não falam muito com você (eles realmente não são simpáticos, são educados, mas na maior partes das vezes não são simpáticos) rs rs. Uma coisa que me ajudou muito foi o curso intensivo de espanhol que fiz 20 dias antes do início das aulas, é um curso pago, mas organizado pela própria universidade para estrangeiros, eu realmente fiquei muito satisfeita de ter feito este curso, os professores eram excelentes! Fiz uma prova de nível, tinha 2h de aulas de gramática todos os dias e mais 2h de expressão oral e leitura e escrita em espanhol, amei as aulas e amei mais ainda os amigos estrangeiros que fiz nesse curso, eles são as pessoas com quem mais convivo até hoje (estou há 3 meses aqui em Málaga). Além do curso, ir ao cinema, assistir aulas, ler muitos livros e conteúdos todos os dias em espanhol, e ter companheiras de apartamento que só falam comigo em espanhol, também tem sido fatores imprescindíveis para o meu crescimento no idioma.

Que festa ou evento cultural mais te chamou a atenção até agora? Por quê?

Mater Dei – Málaga

Tem um evento aqui que se chama “Mater Dei”, que me emocionou muito, principalmente porque sou católica. A Espanha ainda preserva suas tradições e ainda é muito católica. Nesse dia, eles fizeram uma procissão com 7 imagens diferentes da Virgem Maria, que foi passando pela cidade de Málaga e reuniu muita gente nas ruas, o que me fez ficar surpresa e extasiada. Aqui, um grande número de pessoas têm muito respeito pela Nossa Senhora. Outra coisa muito legal foi um desfile de moda que expôs as coleções dos melhores estilistas espanhóis em uma rua muito bonita que tem aqui no centro (foi quando eu me senti finalmente na Europa rs).

Que lugares você já conhece? Qual o seu destino preferido?

Devido ao ritmo difícil na faculdade ainda não consegui sair muito daqui, então, dei prioridade nesses primeiros meses para conhecer a Espanha, o que sempre foi um sonho meu: poder conhecer todas as cidades, (mas estou vendo que ainda não será dessa vez que vou conhecer tudo, rs). Já fui pra 4 cidades espanholas (Córdoba, Sevilla, Toledo e Madrid), uma cidade do Reino Unido que se chama Gibraltar e Lisboa, em Portugal. Até agora, eu amei cada cidade de um jeito diferente e por motivos diferentes, mas Madrid realmente excedeu totalmente as minhas expectativas, achei que era como São Paulo: muitos prédios, industrialização, trânsito etc, mas sinceramente não é. Madrid é fantástica, tem uma mescla linda e harmoniosa entre urbanização e história e Sevilla é uma cidade sem adjetivos de tão linda que é!

Gran Vía – Madrid/13

Plaza de España – Sevilla/13

Como tem estado o clima?

Em relação ao clima, eu cheguei no verão, então, Málaga estava perfeita, penso que vi sua melhor fase. Essa cidade é conhecida como “Costa del sol” e é realmente uma cidade linda, com praias bonitas e um pôr do sol pelo qual eu me derreto só com lembrar de tão lindo que é. Todos os dias o céu tem tons de cores diferentes, é uma coisa fora do comum! Nessa época, enfrentei temperaturas como 34 graus, mas, agora, com a chegada do inverno, está mais frio do que imaginei, as temperaturas ficam entre 6 e 12 graus à noite. No comecinho da manhã, não chega a fazer um frio de nevar, mas por ser uma cidade que tem praias o ar é muito úmido, logo, a sensação térmica sempre é menor do que o que mostram os termômetros.

Vista da janela do meu apartamento – Málaga/13

Vista da janela do meu apartamento – Málaga/13

Os espanhóis foram receptivos? Você tem se sentido acolhida?

hahahaha É…. Não…. eu achei que por ser uma cidade de Andalucia, que todos me diziam que era uma região da Espanha onde as pessoas são mais receptivas, eu seria muito bem acolhida, mas sinceramente eles sempre foram muito educados, mas não simpáticos ou acolhedores, pelo menos não a maioria. Claro que agora tenho amigas espanholas que são maravilhosas, mas foi difícil de encontrá-las rs. Acredito, realmente, que seja uma questão cultural, os espanhóis precisam ser “conquistados”. Até eles te conhecerem, saberem como você é em termos de responsabilidade, comprometimento, valores etc, eles não te dão tanta abertura. Compreender isso fez as coisas melhorarem muito, porque parei de achar que o problema era comigo.

Quais as principais expressões ou gírias que eles usam? Qual o significado delas em português?

Hummm vamos ver, eles falam coisas como:

Que guay! = que legal

Que chulo = é como “que bonito”, mas se eles usam “ella es muy chula” é algo pejorativo

“No pasa nada” = não tem problema, não se preocupe

“Porfa” = por favor

“Vale” = é como “ok” e eles usam muuuito! Para tudo!

“Oye” = é como “Olha”

“Irse de tapas hoy” = sair pra comer e beber alguma coisa

O que você recomendaria que um estudante estrangeiro colocasse na bagagem?

Eu recomendaria que se trouxesse um pouco de tudo, de verdade. Todos me falaram pra não trazer muita coisa, mas a maioria das companhias aéreas nos deixa trazer duas malas de 36kg e eu só trouxe uma grande e outra pequena. Me arrependi muito porque trouxe poucas roupas de verão, já que, teoricamente, o versão acabaria 20 dias depois da minha chegada. Assim, acabei tendo que comprar roupas de calor e não achei aqui nenhum shorts que não fosse muito curto, o que me fez ter que recorrer ao envio por correio de 3 shorts do Brasil pra cá (o que foi caríssimo).

Eu sugeriria também que você trouxesse roupas de que não gosta tanto, porque se precisar deixá-las para levar coisas que você comprou nas viagens, talvez, seja menos triste rs. Outro conselho importante é: não traga mais do que um livro, primeiro, por causa do peso e, segundo, porque você comprará livros aqui, são muitas as ofertas e você estará focado em aprender o idioma. Além disso, não traga tantos sapatos, traga algo confortável, como estudante ou turista você só precisa de conforto.

Você já passou por alguma situação difícil ou inesperada?

Passei por uma coisa um pouco chata com minha professora de fotografia, que inventou que tinha uma regra na faculdade que limitava o número de estudantes estrangeiros por turma. Segundo ela, só seria possível aceitar 5 Erasmus por grupo (Erasmus: pessoas que fazem intercâmbio e que são da Europa, mas a verdade é que na maioria das vezes nem fazemos essa distinção, nos chamamos de “Intercambistas”, assim, de uma forma geral). O fato é que tinham 12 Erasmus interessados em se inscrever na aula e ela demonstrou claramente que não queria tantos estrangeiros na matéria dela. Tivemos que ir até o departamento de Relações Internacionais para eles finalmente resolverem a situação com essa professora e ela foi obrigada a nos aceitar. 

Também tenho uma dona de apartamento louca, que não faz contrato de locação de espaço e que me pediu dois meses de fiança (quando o normal é só um… descobri isso depois que já tinha me apaixonado pelas minhas companheiras de piso). No começo, foi chato e discuti com a dona, porque as regras eram muito particulares e ela queria que nós cumpríssemos, mas aos poucos nos entendemos bem e hoje essa sensação de ódio já passou rs (só que, por favor, não cometa o mesmo erro que eu, alugue um apartamento com contrato e com tudo previamente acordado entre as duas partes, não se desespere se na sua primeira semana você não tiver onde ficar, é melhor procurar e escolher bem do que depois ter que discutir com alguém em outro idioma que não é o seu. Eu realmente tive sorte de morar com pessoas maravilhosas e, por isso, não saí logo em seguida.

Quais os seus pratos preferidos? E bebidas?

Bom, tem uma coisa aqui que chama “pisto”, que são verduras feitas com molho de tomate, simplesmente maravilhosas! Também gosto de berinjelas com mel, uma das “tapas” mais comuns aqui. Sem falar que tem muitas coisas feitas com camarão, além das “paellas” de mariscos,  de frango e de tudo que se possa imaginar. Quanto às bebidas, a coisa mais tradicional é o “tinto de verano”, que é como um vinho com gás, eu não gosto, porque não gosto de bebidas, muito menos de vinho rs, mas tem muita gente que ama e bebe isso como água, ou seja, todos os dias.

Foi possível perceber os efeitos da crise?

Sinceramente, essa foi uma das coisas com que fiquei mais indignada aqui, todos falam da crise, mas não vejo como ela realmente se dá na prática, não acontecem muitas manifestações, os restaurantes e bares continuam sempre muito cheios, os espanhóis continuam fazendo sua “siesta” todos os dias das 14 às 17 horas e, no geral, vi poucos estabelecimentos fecharem.  Leio nos jornais sobre crises com bancos e com alguns estabelecimentos que já não veem tanto mercado, como copiadoras, empresas de revelação de fotos, “fruterias” (tem muitas lojas de frutas aqui em Málaga) e também vi duas manifestações contra a demissão de professores universitários, mas sinceramente a crise em Portugal está 10x pior.

Você mora com pessoas de qual nacionalidade? Como esse intercâmbio cultural tem contribuído para sua experiência pessoal?

Moro com uma francesa que toma banho todos os dias inclusive mais de uma vez (rs só para de uma vez por todas desfazer este estereótipo que eu infelizmente também tinha) e com duas alemãs (que também não comem só carne, pelo contrário, são as pessoas que se alimentam da forma mais saudável que já vi). Eu amo viver com elas, é realmente a minha família daqui, trocamos muitas experiências: que vão desde dificuldades com o idioma, com os trabalhos até descobertas sobre como é o natal em nossos países, pratos típicos, relacionamentos, enfim, somos muito amigas (graças a Deus). E eu realmente aprendo muito com elas, não só com elas, como com todos os outros amigos estrangeiros com quem convivo, que realmente me fizeram ver que o mundo é incrivelmente maior do que eu imaginava e que as diferenças culturais são gritantes, mas por outro lado enriquecedoras e encantadoras.

Minhas companheiras de apartamento – Málaga/13

O que você diria para um estudante que tem vontade de fazer intercâmbio, mas não se decide por insegurança de estar longe de casa, da família, dos amigos, namorado (a)?

Bom, um conselho? Se você quer crescer profissionalmente e pessoalmente saia da sua zona de conforto! O mercado te pedirá isso todos os dias e a vida te exige isso constantemente, o intercâmbio ao invés de dificultar sua vida te ensinará isso com dificuldades, mas também com recompensas inesquecíveis.

Se você está na faculdade essa realmente é a hora de experimentar outras faces da sua profissão, há muito para se olhar e  admirar no mundo e na sua carreira, realmente você pode se surpreender com os rumos que sua vida pode levar, inclusive, te dando dúvidas angustiantes e certezas que podem mudar tudo. Não tenho como garantir que uma experiência assim pode ser tão vantajosa pra você como está sendo pra mim, eu realmente sinto muitas vezes que deixei muitas coisas importantes pra trás como minha família, meu namorado, meus amigos e o meu país (sim, hoje eu amo o Brasil mais do que qualquer outro país no mundo), mas é graças a essa experiência que hoje sei que eles são “uma das coisas mais importantes”, se não as mais importantes. É preciso às vezes olhar de fora para amar o que temos, é claro que amo muitos aspectos da minha nova rotina, meus novos amigos e essa nova cultura, mas hoje eu sei que as pessoas mais importantes da minha vida sempre estarão torcendo por mim, pelo meu crescimento e pela minha volta. Então, viva isso, você realmente corre o risco de se apaixonar!

Fotos por Ingrid Matos Rocha Bezerra Alves

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Aprendendo o bê-a-bá em russo

Juliana realiza trabalho voluntário desde 2011

Juliana Magalhães Vilas Boas é aluna de ciências contábeis da Escola de Economia e Administração da USP (FEA) e em 2012 foi para a Rússia realizar um intercâmbio social. Lá ela aprendeu, além de uma e outra palavra, que é possível se comunicar mesmo quando o idioma parece ser a maior barreira para estabelecer contato com os novos companheiros, sejam eles adultos ou não…

Como surgiu a oportunidade de fazer esse intercâmbio para a Rússia? Você realizava algum trabalho voluntário no Brasil?

No Brasil, eu já trabalhava voluntariamente na AIESEC, uma organização de jovens universitários do mundo que tem seu escritório localizado na FEA. A organização promove, além do trabalho voluntário no escritório, intercâmbio social e profissional, visando o desenvolvimento do potencial de liderança de jovens estudantes; e foi trabalhando lá que conheci a oportunidade e resolvi ir para a Rússia. Qualquer pessoa pode, tanto trabalhar na AIESEC, como também, fazer um dos programas de intercâmbio oferecidos por eles.

 Por que a Rússia?

A partir do momento em que resolvi fazer meu intercâmbio, a Rússia ainda não estava nos meus planos, pensava sim no leste europeu, mas também na América Latina, principalmente, na Colômbia. Então comecei a procurar projetos que me interessavam, não me importando tanto com o país em si, mas com a descrição da vaga. Depois de procurar e me interessar por vários projetos pelo mundo, vi esse e pensei: “Por que não?”. Nunca tinha imaginado que talvez pudesse conhecer a Rússia, e provavelmente não teria outra oportunidade… e foi mais ou menos assim que me decidi pelo país!

 Com qual comunidade você teve contato? Como eles te receberam?

Fui para uma cidade chamada Samara, lá eu trabalhei em um acampamento de verão com crianças russas de classe média, entre 4 e 12 anos. A recepção foi incrível, os russos são surpreendentemente amigáveis e amáveis, algo que não esperava. Imaginava-os muitos frios e distantes.

Grupo com que Juliana teve contato durante o tempo em que viveu na Rússia

 Vocês se comunicavam em qual língua?

No acampamento, nenhuma criança falava inglês, e nós, os intercambistas, também não falávamos russo, foi difícil no começo, mas em nenhum momento isso atrapalhou a aproximação com as crianças. 

A comunicação não deixava de ser um desafio, mas tínhamos o manager do acampamento que falava um pouco de inglês e fazia a maioria das traduções para as crianças. No começo foi mais complicado, pois ainda não tínhamos nos adaptado à língua. Conforme o tempo foi passando, aprendemos a nos comunicar com eles e o diálogo começou a “fluir”. Todos tinham muita vontade de nos ensinar russo, aprender inglês e se comunicar de alguma forma, então, aprendemos a lidar com essa dificuldade.

Você usava de gestos para se comunicar com eles? Acabou aprendendo algo do idioma?

Sim, acabávamos usando muito de gestos para nos comunicarmos. Aprendi algumas palavras em russo, as básicas, como: “obrigada”, “de nada”, “com licença”, “por favor”, “bom dia” e “boa noite”, ainda lembro um pouco. Aprendi também o nome de alguns objetos e frases que me ajudavam no dia a dia. Por exemplo, spaciba (escrevendo como se fala) é “obrigada” e “com licença”. Pajausta é “de nada”. Dobra ultra é “bom dia” e dobra notche é “boa noite”.

Existem duas palavras para dizer “oi”, uma que é informal (e mais fácil de se pronunciar) e a formal. Priviet é informal, você pode usar quando é apenas apresentado a uma pessoa, além de ser a única que eu conseguia pronunciar bem. E, algo como strasvitche seria o “oi” formal. Sempre me diziam eu que estava pronunciando errado, apesar de ser igual ao que eles falavam (risos). Por fim, decidi que era melhor não me arriscar, fiquei com o “oi” informal. Outra coisa que aprendi e lembro é falar “tudo bom?” que é kaqu di lá?. Quanto às respostas, só aprendi a dizer harashô, que significa”bem” ou “ok”.

Os intercambistas

Quais eram as suas atividades diárias? O que os outros estrangeiros faziam?

Éramos em três intercambistas, eu, uma colombiana e um indiano, nossas atividades eram as mesmas, fomos monitores do acampamento, então as jobs não mudavam de uma pessoa para outra. Basicamente, tínhamos de 4 a 5 atividades diárias para realizar com os pequenos, não só com eles, mas também com os seus pais. Nos finais de semana, em geral, as famílias iam até o acampamento visitar as crianças. Pelo que pude entender, os pais mandavam seus filhos com os avôs para o acampamento de férias enquanto ficavam trabalhando.

Essa vocês conhecem!

Tínhamos liberdade total para criarmos nossa agenda, então, costumávamos trazer atividades típicas de cada país: danças, jogos, comidas etc. Ao longo da semana, também inseríamos atividades com as quais eles pudessem aprender um pouco de inglês.

 Você foi com algum tipo de bolsa?

Não fui com bolsa não. Grande parte dos projetos sociais que a AIESEC oferece tem alimentação e/ou acomodação pagas pela ONG/escola em que você está indo trabalhar, e este foi meu caso. Procurei vagas que ofereciam acomodação e alimentação, logo, meus gastos foram: passagem, seguro viagem, a taxa da AIESEC e gastos pessoais.

Onde você realizava as refeições? Onde você dormia? Foi confortável?

Eu e mais os dois intercambistas morávamos em um dos quartos do acampamento, éramos três dividindo um quarto duplo com banheiro, tudo extremamente confortável. As refeições eram feitas no restaurante do acampamento mesmo, junto com as crianças.

Quanto tempo você ficou no país? Foi fácil se adaptar?

Fiquei na Rússia por 6 semanas, a adaptação foi mais fácil do que eu imaginava; pensava que o choque cultural seria muito maior, mas não, os russos são bem hospitaleiros, o que facilitou a minha adaptação. Senti saudades, além da família e dos amigos, da comida brasileira. Lá eles não variam o cardápio, é só batata, sopa, carne, beterraba… e muito óleo! xD

O que mais te impressionou em relação à cultura local?

Acho que o que mais me impressionou foi a hospitalidade deles, pois era algo que não esperava. Os russos são muito calorosos e estão sempre dispostos a ajudar, por mais que eles não falem sua língua e também não estejam te entendendo!

Ensinando inglês

Algo curioso,e que estranhei bastante, foi que, pelo menos na cidade em que morei, eles não tem costume de comer com garfo e faca, apenas com garfo ou colher, utilizam a mão mesmo.

Você chegou a viajar para outros lugares dentro ou fora do país?

Na Rússia, tive a oportunidade de visitar apenas Moscou, que é maravilhoso!!! A cidade mais bonita que conheci até hoje, sério! Acaba saindo caro viajar dentro da Rússia por causa das longas distâncias, mas Moscou valeu muito a pena! Fui para a Espanha também.

Se pudesse, gostaria de ter outra experiência como essa?

Com certeza! Pretendo voltar para a Rússia um dia e já estou planejando meu segundo intercâmbio social, mas agora será para o Egito, provavelmente.

 O que você leva dessa viagem como lição para a vida?

Acho que o aprendizado de estar sozinha em um país diferente e com uma língua completamente diferente. É desafiador, algo que te põe a prova a todo momento. De cada dificuldade você tira um aprendizado, uma história, você acaba se surpreendendo, e no final é recompensador!

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Intercâmbio social na África

Marie conta que o idioma não a principal barreira que encontrou para se comunicar

Marie conta que o idioma não foi a principal barreira que encontrou para se comunicar

Marie-Pier Côté é canadense e vive na cidade de Sherbrooke, na província de Québec. No final de 2012, ela realizou um intercâmbio social para a África e conta aqui quais os principais desafios que enfrentou durante a viagem. Marie é estudante de engenharia civil da Université de Sherbrooke, no Canadá.

Como surgiu a oportunidade de fazer essa viagem? Você já fazia algum tipo de trabalho voluntário no Canadá?

Formava parte de um grupo que se chama GCIUS (Grupo de Colaboração Internacional da Universidade de Shebrooke), edição 2012. Este grupo reune, todos os anos, seis estudantes de engenharia que estejam cursando o sexto semestre da faculdade para realizar um projeto de desenvolvimento internacional. Os seis estudantes precisam arcar com o financiamente da viagem (60 000 dólares canadenses) e fazer o plano e desenho do projeto. Além disso, realizam um “estágio” de três meses e meio no local a que o projeto se destina. Meu projeto era a implantação de uma rede de irrigação para o cultivo de hortaliças em um terreno de quatro hectares, no povoado africano de Tindila, para um grupo de 180 mulheres.

Concretamente, enquanto eu cursava engenharia civil, trabalhei com uma equipe de amigos durante um ano, para juntar o dinheiro necessário e me preparar para o projeto que começaria em setembro de 2012. A rede de irrigação incluia seis poços, tubos de PVC enterrados com diferentes saídas para regar o solo e um reservatório de distribuição elevado, que distribuia água usando a gravidade.

“Meu grupo na GCIUS 2012”

“Reservatório de distribuição da rede de irrigação. Na foto, minha amiga Carole-Anne”

 

Como se deu a escolha da comunidade?

Existe uma colaboração entre o GCIUS e a “Uniterra”, programa de voluntariado internacional do Canadá que tem contato direto com essas comunidades. O projeto da rede de irrigação foi realizado com uma sociedade de luta contra a pobreza da província de Pasoré. Eles que nos ajudaram a entrar em contato com a comunidade de Tindila.

Como foram as boas-vindas?

As boas-vindas no povoado foram extraordinárias. As mulheres cantavam quando chegamos e toda a comunidade queria que estivéssemos cômodos. Fiz um vídeo sobre isso (está em francês, mas vale a pena pelas imagens).

Como você fazia para se comunicar com as pessoas? O idioma dificultava muito o contato?

Burkina Faso é uma colônia francesa, então, o idioma oficial, no caso dos negócios e das escolas, é o francês. Mas em um pequeno povoado como Tindila a maioria dos adultos fala bem pouco francês, é mais comum o dialeto local.

Na verdade, o mais difícil na comunicação não era tanto o idioma, e sim, a diferença de cultura. Existe ainda uma grande influência do período colonialista que complica um pouco as coisas. As pessoas da região querem estar bem com os brancos e aprovar tudo o que dizem, mas o mais complicado é saber o que estão pensando realmente.

Quais eram suas atividades diárias?

A padaria de Tindila

Minhas atividades diárias eram: levantar-me às seis da manhã, ir buscar pão na “padaria” do “centro”, trabalhar no projeto (desde reuniões com as beneficiárias e com o associado local até o trabalho manual na obra), ajudar as cozinheiras de vez em quando e também lavar minha roupa à mão às vezes. Durante a tarde não havia muito o que se fazer, mas certos dias aconteciam jogos de futebol e nós podíamos jogar com as crianças; também íamos ao “centro” ou simplesmente ficávamos conversando em casa. É bom lembrar que havia sol somente 12 horas por dia, das cinco da manhã até as cinco da tarde, e que em um povoado sem eletricidade isso influencia muito no ritmo de vida.

O que vocês comiam diariamente?

Geralmente comíamos arroz e também “tô” (se parece a um molho branco), além de massa de “mil” (um cereal) com um molho diferente. Eram muitos os molhos: de cebola e tomate, de “baobab”, de “gombo”, de “alubia blanca”, de amendoim etc. Algumas vezes, comi grelhado de “igname”, que é um tipo de batata muito saboroso. Era o meu prato favorito! Eu também gostava muito dos “alocos”, são bananas fritas.

Onde vocês ficaram alojados?

“Na nossa casa… a luz somente pelas aparências, porque não tinha eletricidade mesmo! Os recipientes azuis serviam para armazenar água de uso diário (para o banho, limpeza, roupa etc). A água, no entanto, não era potável. Só bebíamos água engarrafada”

“Um pouco de vida na casa dos quebecenses em Tindila!”

Eu dormia em uma casa de concreto com os meus companheiros canadenses. Nos povoados africanos, geralmente, as famílias vivem juntas, ou seja: o irmão mais velho, com a sua esposa (ou suas esposas) e seus filhos convivem no mesmo ambiente em que moram seus irmãos e suas respectivas famílias. Em francês, chamamos isso de “concessão”, se trata de um agrupamento de casinhas para cada família. Tivemos a sorte de estar alojados na casa de um irmão mais velho que está trabalhando na capital do país.

“Concessão” em que Marie ficou hospedada

Como foi sua adaptação à falta de água e de luz?

Basicamente, não existiam muitas acomodações no povoado e, talvez, menos do que é possível encontrar em uma cidade desfavorecida no Canadá. Acredito que nesses momentos a adaptação se dá mais com relação aos laços que se pode estabelecer com as pessoas nativas e por meio da solidariedade que se pode desenvolver junto aos companheiros. Tive a chance de estar com um grupo maravilhoso e de encontrar gente muito inspiradora, que me ajudou muitíssimo a me adaptar nessas condições difíceis. 

Do que você sentia saudades?

Dos meus amigos e da minha família, pelo pouco contato que tinha com eles.

Como a sua família reagiu à sua decisão de fazer essa viagem?

No começo meus pais foram um pouco incompreensivos, mas a minha família em geral teve uma reação positiva. Do meu ponto de vista, estamos em uma época de globalização e de oportunidades de viajar pelo mundo todo. Minha família acabou entendendo que era uma aventura muito estimulante para mim.

Reunião típica com as mulheres

A ausência de tecnologia  te fez mudar a maneira como você enxerga a comunicação entre as pessoas? Você considera que dava mais atenção aos seus companheiros pela falta de acesso a computadores e internet?

Eu realmente gostei de estar “desconectada” do mundo para concentrarme no que estava vivendo na África, mas sei também que não é realista viver sempre dessa maneira, porque senti saudades da minha família e dos meus amigos do Canadá. Claro que ter internet e celular facilitam a comunicação “virtual”, sendo mais fácil manter contato com quem está distante. Mas, talvez, isso gere a tendência de esquecer aqueles que estão perto de você. Acredito que é muito importante aproveitar o momento presente com as pessoas com quem estamos, e não necessitamos “desconectarnos” completamente para isso!

Você teve a chance de viajar para outros lugares? Para onde você foi?

O objetivo principal era o projeto, mas reservamos tempo para fazer algumas viagens curtas. Fizemos duas viagens de três dias cada durante a nossa estância. Fomos ao Parque Nacional de Pô (no sul do país) e a Banfora (no oeste), para ver os hipopótamos!

Se possível, você gostaria de ter outra experiência como essa?

Sinceramente, não estou buscando viver em condições precárias, mas sim, ter um impacto positivo com o trabalho que posso desenvolver. E se esse objetivo me apontar outra ocasião que implique viver em um povoado como o de Tindila, vou considerá-lo porque sei que posso (até quando a minha saúde permitir!).

Você consideraria que houve uma mudança na sua maneira de perceber as dificuldades da vida depois de estar em contato com uma comunidade humilde como esta?

Provavelmente… Aprendi a sentir compaixão e empatia desde muito pequena e essa experiência pode ter sido um acelerador para que eu percebesse as coisas de uma maneira mais “humana”. Acredito que a mudança real se dá nas ações, não só no pensamento, então, ainda estou em processo.

O que ficou dessa viagem para você? Qual a sua lembrança mais forte e intensa?

Essa é a pergunta mais difícil de responder, porque vivi essa experiência e logo depois fui de intercâmbio para o México, e as duas viagens foram profundamente diferentes! Sinto que não consegui fazer uma retrospectiva suficiente para saber a impressão que ficou comigo, já que estava tratando de me adaptar outra vez.

Mesmo assim, acredito que é a imagem das mulheres de Tindila o que eu nunca vou esquecer. Tratamos de dar-lhes a oportunidade de serem proprietárias de uma parcela de terra para cultivar-la e de dar-lhes, dessa maneira, uma voz para desenvolverem-se em uma comunidade controlada somente por homens. Vou me lembrar dessas mulheres, mas principalmente de três delas, que simbolizam força, determinação e resistência para mim: minha mãe africana, Antoinette; a presidente do agrupamento, Alimata, e minha amiga Angèle.

*Leer el texto en español*

Antoinette

Alimata

Angèle

 

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