Namoro a centenas de milhares de km

Acredito que ninguém em sã consciência vá duvidar dos benefícios que um intercâmbio pode trazer tanto para a vida pessoal como profissional de qualquer pessoa. Mas também é inegável que sair de casa e passar alguns meses ou anos fora pode não ser uma decisão simples, ainda mais quando é preciso deixar algumas coisinhas para trás. Cachorro, gato, passarinho… até aí a saudade pode bater, mas no fundo a gente aguenta. Agora, imagine deixar seu namorado (a)? A família e os amigos vão sentir ciúmes, mas a verdade é que naqueles 5 minutos que você tiver (depois de lavar a roupa, limpar a casa, fazer o almoço e terminar o trabalho da faculdade) é pra ele (a) que você vai fazer uma chamada relâmpago.

Eu e o Lucas decidimos juntos que queríamos fazer intercâmbio. Não que a gente não tivesse pensado nisso antes, mas eu me lembro bem da tarde em que começamos, de fato, a considerar o assunto. Acho que deu certo porque não pensamos demais:

Desde algum tempo atrás

– E aí, amor? Olha aqui, chegou e-mail pra mim sobre um edital que vai rolar na USP. Eles oferecem intercâmbio para vários países, vi que tem pra Alemanha e também para alguns lugares em que se fala espanhol.

– Sério? Deixa eu ver…

Nós dois começamos a fazer a inscrição. Depois de correr atrás de uma infinidade de papéis e de aguardar etapa por etapa cada um dos resultados, no 1° semestre desse ano eu fui parar no México, e ele, na Alemanha. A conquista foi de tirar o fôlego e, na prática, considero que foi tudo muito melhor, o que não quer dizer que tenha sido fácil. No total, passamos 7 meses separados vivendo nosso namoro à distância.

Relógio sem horas

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Quando Greenwich interfere em uma relação o assunto pode ser preocupante. De três a seis, depois a sete e, por fim, a duas horas de diferença! Foi assim que nossa curva de fuso-horário variou nesse tempo todo. E confesso que, na maioria das vezes, era ele quem ficava acordado. Não tinha dia nem noite quando a gente queria se falar. Como não nos pressionávamos no sentido de telefonar direto, a volta das viagens geralmente era o momento chave para fazer uma ou outra ligação, e aí o relógio deixava de contar as horas. Quanto a esse pequeno desafio, minha única recomendação é que quem precise dormir não tenha medo de finalmente apagar a luz. 

Almoços e jantares a dois

Nessas de sair de casa você sempre acaba descobrindo seus dotes culinários, ou pelo menos aprende como não passar fome sendo que já inventaram atum enlatado e macarrão.

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A distância não impede que duas pessoas possam realizar atividades cotidianas juntas. Sempre que possível, eu almoçava enquanto ele jantava. A única desgraça vinha na hora da sobremesa, porque no México não vendiam chocolates que nem aqueles que eu fui intimada a conhecer… de uma distância excessivamente saudável. Apesar desse tipo de tortura virtual, recomendo todos os aplicativos do gênero para facilitar e baratear a comunicação. Sem preconceito, vale a pena ter uma boa leva deles pra quando um falhar você conseguir terminar de comer sem que o prato esfrie. A tecnologia tem o poder de auxiliar e de estressar os seres humanos.

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Afundar… não afundou!

Mais importante do que tentar sondar seu namorado (a) é manter a confiança e ter fé que o barco vai afundar. Como bons nerds separados pelo Atlântico, eu e o Lucas trocamos no dia dos namorados (mais precisamente na data em que se comemora o Valentine’s Day) um jogo bastante peculiar… batalha naval. Para os interessados, lamento informar que esse aplicativo, na verdade, é um pouco mais restrito. De qualquer forma, vale a pena usar a criatividade e não desperdiçar boas chances de se divertir juntos. Ele sempre ganha, mas eu continuo tentando. 

Lágrimas de crocodilo

Está aí algo de que eu me orgulho: em 7 meses longe de casa chorei uma única vez. E se eu contar que nem foi exatamente de saudades do Lucas?! Eu estava naqueles dias, e era minha primeira semana no México.

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Quem me conhece sabe que não sou das pessoas mais duronas, apesar de ter avançado um pouco na escala da manteiga-derretida. Acontece que nessa noite não foi fácil segurar as lágrimas de crocodilo. Eu tinha ido a um barzinho e, além de estar emotiva, dei o azar de não ter absolutamente nada do que eu tinha pedido, apesar de os petiscos e bebidas constarem no cardápio. Resumo da noite: deixei meus amigos no bar e fui chorar no albergue. Liguei para o Lucas e mesmo ele tendo me consolado, não recomendo esse tipo de acesso nervoso a ninguém. Antes de dormir tinha uma imagem fixa na cabeça: uma tostada com ceviche sorrindo pra mim. Já tinha meus amigos e eles quiseram me animar. Recado para os rapazes: a TPM nunca te abandona.

No fim das contas

O fato é que, no fim das contas, fomos muito justos um com o outro, e sem querer acabou que eu viajei um mês antes dele para o México e ele voltou um mês depois de mim da Alemanha. Somando e dividindo, isso nos leva ao mesmo período de tempo na solidão em terras brasileiras. Mas por que essa informação é importante?

Conselho último e primeiro: parece óbvio e, infelizmente, foi constatável que quem fica em casa, sujeito à mesma rotina, sofre mais. E se você está nessa situação, o que fazer? Não pressionar o viajante 😉 Ao invés de se precipitar, lembre: Se você estivesse em um lugar totalmente novo, ia preferir ficar na frente do computador ou aproveitar a viagem? Respeitando a nova realidade do seu parceiro (a), certamente quando vocês puderem se falar a conversa será muito mais prazerosa.

A obrigação de manter contato foi uma das maiores dificuldades que encontrei durante a viagem. (O recado vale para pais, mães, tios, irmãos, cachorros, gatos e papagaios). Sem tantas exigências, qualquer intercambista é capaz de expressar um pouquinho melhor o sentimento de sentir saudades sem sentir vontade de voltar pra casa.

1 comentario

Un pensamiento en “Namoro a centenas de milhares de km

  1. Deb

    Má, acho que vc queria dizer “ter fé que o barco não vai afundar”, né?! kkkk
    Adorei tudo… estou lendo quase todos os posts!! Sou sua fã!

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